Sinto falta de São Paulo.
Acordei sentindo falta de São Paulo. Saudade. Aquele sentimento incômodo, que permanece dentro de você e te corrói.
Sinto falta das manhas de São Paulo. Magníficas, às vezes escuras, as vezes claras, mas sempre lindas. Não são com as manhas daqui, que são campestres, de uma cor a qual estou acostumada. Elas possuem as tonalidades da poluição, é claro, mas talvez – só talvez – é isso que a faz bela. Quando você está no décimo quarto andar de um prédio, no meio de uma rua, você percebe isso. Percebe que o dia começa cedo nesse lugar, que milhões de pessoas, com seus corações quebrados ou não, estão levantando de suas camas, rumo a um novo dia. Elas são a alma dessa cidade.
Sinto falta das pessoas. Elas passam e não simplesmente não se notam, o que é verdade. Mas elas te desejam um bom dia, que elas realmente significam em suas palavras. Elas querem que você tenha um bom dia.
Sinto falta do croissant de frango da panificadora da esquina de cima. Sinto falta de uma sacada cheia de plantas. Sinto falta de olhar pela janela desse apartamento e ouvir vozes paulistas apressadas, que correm, que cantam músicas na cozinha, enquanto escutam o rádio.
Sinto falta do MASP, das risadas compartilhadas nele, das obras presentes nesse lugar. Sinto falta de ter uma vista de uma avenida movimentada que não me recordo o nome – mas que era movimentada. MASP e sua imperiosidade, sua beleza estonteante, localizada na avenida mais conhecida do Brasil: a Avenida Paulista. Ah, que lugar maravilhoso. Talvez a parte mais fria da cidade, pela sua localização, mas fantástica. As diversidades culturais presentes nela são admiráveis.
Sinto falta do metrô, do olhar ansioso de uma paulista que me acompanhava nessa viagem de sensações e descobertas. Cores abundantes em um local extremamente cinza. Pessoas de todas as faixas etárias percorrendo seu caminho, seguindo sua vida. Linhas e mais linhas que levam pessoas as suas casas, a suas universidades, as seus trabalhos, aos seus amores.
Sinto falta da noite. Ela não era silenciosa como aqui. São Paulo não para, nem quando a cidade relativamente dorme. O céu, ah o céu. Lindo como a manhã, escuro, às vezes limpo, às vezes nublado, âs vezes só céu. Céu de São Paulo.
Sinto falta do museu do Ipiranga, da Estação da Luz, da Pinacoteca, do Centro da cidade. Da Catedral da Sé. Do cappuccino da Pinacoteca, do Museu da Língua Portuguesa, da voz da Fernanda Montenegro.
Sinto falta da Liberdade e até da 25 de Março. Sinto falta do Theatro Municipal e da Galeria do Rock. Sinto falta das coisas pequenas, como olhar pela primeira vez o quadro de Pedro Américo pendurado na sala principal do museu do Ipiranga. Olhar a cidade inteira sob a perspectiva daquele lugar mágico, que carrega tanta história. Sinto falta da biblioteca, linda e branca, fria e clara, partilhando meus pensamentos com aquela mesma paulista dos olhos ansiosos.
Sinto falta do apartamento 141. Das pessoas que vivem naquele lugar – mais especialmente, da paulista dos olhos ansiosos que vive naquele apartamento. Sinto falta do meu coração, que deixei lá com ela, enquanto ela sussurrava um “eu te amo”. Sinto falta do abraço que dei em maio e do cinema em julho. Sinto falta das ruas em que andei com ela e dos carros que passavam entre nós. Sinto falta do fast food compartilhado na praça de alimentação de um shopping. Sinto falta dos sebos cheios de livros de auto ajuda que cheiravam a uma decadência bela. Sinto falta de um almoço em uma cantina italiana e um chantilly no meu nariz, de um bolo de aniversário. Sinto falta de strogonoff ás onze da noite, de um cafuné na varanda. De lágrimas compartilhadas no chão do apartamento do décimo quinto andar, de sorvete com balas de gelatina, de exercícios de história, de um estojo roxo, de uma mão curitibana que insistia em segurar uma mão paulista e nunca mais soltar.
Sinto falta de São Paulo. Sinto falta desse lugar. Dizem que lar, muitas vezes, não é um local, e sim uma pessoa e eles nunca estiveram tão certos. Posso sentir falta de São Paulo e considerar esse lugar como minha segunda casa, mas lar tem outro nome para mim. Meu lar tem um par de olhos castanhos ansiosos e ela, meus caros, ela é meu lar.