Archive for 01/10/2013

De repente, não mais que de repente


         Sinto falta de São Paulo.

      Acordei sentindo falta de São Paulo. Saudade. Aquele sentimento incômodo, que permanece dentro de você e te corrói. 

       Sinto falta das manhas de São Paulo. Magníficas, às vezes escuras, as vezes claras, mas sempre lindas. Não são com as manhas daqui, que são campestres, de uma cor a qual estou acostumada. Elas possuem as tonalidades da poluição, é claro, mas talvez – só talvez – é isso que a faz bela. Quando você está no décimo quarto andar de um prédio, no meio de uma rua, você percebe isso. Percebe que o dia começa cedo nesse lugar, que milhões de pessoas, com seus corações quebrados ou não, estão levantando de suas camas, rumo a um novo dia. Elas são a alma dessa cidade. 

      Sinto falta das pessoas. Elas passam e não simplesmente não se notam, o que é verdade. Mas elas te desejam um bom dia, que elas realmente significam em suas palavras. Elas querem que você tenha um bom dia. 

         Sinto falta do croissant de frango da panificadora da esquina de cima. Sinto falta de uma sacada cheia de plantas. Sinto falta de olhar pela janela desse apartamento e ouvir vozes paulistas apressadas, que correm, que cantam músicas na cozinha, enquanto escutam o rádio. 

        Sinto falta do MASP, das risadas compartilhadas nele, das obras presentes nesse lugar. Sinto falta de ter uma vista de uma avenida movimentada que não me recordo o nome – mas que era movimentada. MASP e sua imperiosidade, sua beleza estonteante, localizada na avenida mais conhecida do Brasil: a Avenida Paulista. Ah, que lugar maravilhoso. Talvez a parte mais fria da cidade, pela sua localização, mas fantástica. As diversidades culturais presentes nela são admiráveis. 

      Sinto falta do metrô, do olhar ansioso de uma paulista que me acompanhava nessa viagem de sensações e descobertas. Cores abundantes em um local extremamente cinza. Pessoas de todas as faixas etárias percorrendo seu caminho, seguindo sua vida. Linhas e mais linhas que levam pessoas as suas casas, a suas universidades, as seus trabalhos, aos seus amores. 

      Sinto falta da noite. Ela não era silenciosa como aqui. São Paulo não para, nem quando a cidade relativamente dorme. O céu, ah o céu. Lindo como a manhã, escuro, às vezes limpo, às vezes nublado, âs vezes só céu. Céu de São Paulo. 

      Sinto falta do museu do Ipiranga, da Estação da Luz, da Pinacoteca, do Centro da cidade. Da Catedral da Sé. Do cappuccino da Pinacoteca, do Museu da Língua Portuguesa, da voz da Fernanda Montenegro. 

      Sinto falta da Liberdade e até da 25 de Março. Sinto falta do Theatro Municipal e da Galeria do Rock. Sinto falta das coisas pequenas, como olhar pela primeira vez o quadro de Pedro Américo pendurado na sala principal do museu do Ipiranga. Olhar a cidade inteira sob a perspectiva daquele lugar mágico, que carrega tanta história. Sinto falta da biblioteca, linda e branca, fria e clara, partilhando meus pensamentos com aquela mesma paulista dos olhos ansiosos.

    Sinto falta do apartamento 141. Das pessoas que vivem naquele lugar – mais especialmente, da paulista dos olhos ansiosos que vive naquele apartamento. Sinto falta do meu coração, que deixei lá com ela, enquanto ela sussurrava um “eu te amo”. Sinto falta do abraço que dei em maio e do cinema em julho. Sinto falta das ruas em que andei com ela e dos carros que passavam entre nós. Sinto falta do fast food compartilhado na praça de alimentação de um shopping. Sinto falta dos sebos cheios de livros de auto ajuda que cheiravam a uma decadência bela. Sinto falta de um almoço em uma cantina italiana e um chantilly no meu nariz, de um bolo de aniversário. Sinto falta de strogonoff ás onze da noite, de um cafuné na varanda. De lágrimas compartilhadas no chão do apartamento do décimo quinto andar, de sorvete com balas de gelatina, de exercícios de história, de um estojo roxo, de uma mão curitibana que insistia em segurar uma mão paulista e nunca mais soltar.

         Sinto falta de São Paulo. Sinto falta desse lugar. Dizem que lar, muitas vezes, não é um local, e sim uma pessoa e eles nunca estiveram tão certos. Posso sentir falta de São Paulo e considerar esse lugar como minha segunda casa, mas lar tem outro nome para mim. Meu lar tem um par de olhos castanhos ansiosos e ela, meus caros, ela é meu lar.

Não é uma fase


          Não foi porque eu não encontrei o cara certo. Nunca foi desse princípio - sempre foi porque era assim que tinha que ser. 
          Começou lá quando eu usava saia xadrez e uma franja reta. Lá, quando não sabia que eu poderia ser diferente. Quando eu tinha preferencia a companhia de mulheres, quando era mais carinhosa com elas. Sempre amei-as incondicionalmente, porque elas eram fortes, carregavam um bebê por nove meses, sofriam de dores de período em período. Batalhavam para terem um lugar de destaque. Elas sempre foram minhas favoritas. 
     Mas, a menina de franja reta cresceu - apenas na idade e mentalidade, porque ela continuava baixinha. Vivia entre livros e cadernos, poesias e histórias e nunca deu muita atenção para o amor. Ela preferia saborear um alheio, aquele das personagens que lia e relia, dos poemas que eram dedicados a pessoas de amores infinitos. Era melhor, não tinha como se machucar curtindo um sentimento que estava nas páginas. Ela percebia que os garotos não a notavam, mas isso não a incomodou, a princípio, mas ela percebeu que havia alguma coisa errada. 
       Ela achou que se apaixonou por alguns garotos - até escreveu poemas a eles, mas passava. Era como um rascunho que ficava muito disforme e era jogado no lixo. Nenhum dessas paixonites durava mais que dois meses, enquanto a maioria de suas amigas já estava no segundo namorado. É interessante que se entenda também que essa garota não era atraente, por conseguinte nunca havia beijado ninguém. Ela acreditava piamente na importância do beijo - ele não é dado em qualquer boca, não mesmo. Esperando, essa garota ficava. Até que um dia isso mudou.
          Agora, garota da franja reta tinha seus 16 anos, hormônios que gritavam, um cabelo curto e o olhar cada vez mais perspicaz. E então, em um dia qualquer de um ano qualquer, uma força da natureza apareceu. Tinha nome, idade, endereço e telefone. E tinha uma boca. As coisas começaram a fazer sentido quando essa força da natureza passou no corredor do colégio com suas madeixas esverdeadas nas pontas. 
             Baam. Parecia certo.
         Era algo como yin and yang. Tão diferente e muito normal ao mesmo tempo, era bastante e era demais. O processo de aceitação foi meio difícil, é claro. Eu - obviamente que estaria dizendo isso na terceira pessoa - pirei de uma forma engraçada: chorei e não disse nada para ninguém porque, a propósito, todos achavam que eu era uma coisa, mas na realidade nem eu mesma sabia o que era. Mas levava a vida na serenidade, por mais que o processo de "não sou como a maioria" fosse extremamente assustador e não ajudava em nada que aquela força da natureza fazia minha situação ficar inúmeras vezes pior. Foi ela que me fez ver que o desinteresse em garotos e a brevidade das minhas paixonites tinham uma razão: eu era gay. 
       Nunca me auto intitulei gay. Sempre achei que rótulos eram para pessoas que precisavam se encaixar, então nunca cheguei numa conversa, em uma mesa de bar e disse "oi, meu nome é Caroline e eu sou gay". Não, eu não faria e nunca farei isso. Ser gay te diferencia alguma coisa das outras pessoas? Por mais que entendesse exatamente assim, não era dessa forma. Você é assim porque é assim, pura e simplesmente isso. Você continua pegando o ônibus lotado das 18:10 no terminal, você continua comendo, vendo seus filmes, lendo seus livros. Não muda nada, nadinha. Você ainda tem 23 cromossomos e glóbulos brancos. 
          Entender minha opção foi complicado e até hoje não contei para os meus pais, por mais que eles saibam que não trarei um namorado para casa. Minha mãe apoia a causa gay e vê que a adoção por casais do mesmo sexo deva ser entendida pela sociedade. Ela compreende que não importa a pessoa com quem eu compartilhe a cama, o importante é que eu seja feliz. 
        Desde que entendi que a coisa comigo não funcionava de um jeito, não tive um relacionamento ou algo do gênero. A força da natureza que me fez descobrir o que eu era acabou despertando um amor unilateral. Não posso dizer que todos os meus momentos com ela foram tristes ou coisas assim - pelo contrário, eles foram de descoberta para mim. A felicidade se mostrava nos pequenos momentos em que estava com meu sol do saara. Devo boa parte de quem eu sou para ela, e isso não é uma coisa que me arrependa. 
        Alguns meses atrás, meus lábios tocaram pela primeira vez uma pessoa que havia despertado em mim um sentimento de paz. Ela é minha melhor amiga, minha alma gêmea, por mais que ela não ache isso. Tocar seus lábios foi algo mágico, ainda mais para mim, a garota que apenas partilhou seus lábios com 2 pessoas num passado não tão distante. O engraçado que ele tinha sabor de liberdade: eu finalmente havia encontrado paz comigo mesma. O ponto alto disso é que agora eu posso dizer, como toda a certeza, que isso não é passageiro. Entendo agora que toda aquela angústia que sentia lá no começo, lá quando eu percebi que não era do jeito que imagina ser, era para construir o que sou hoje, o que sou no momento em que escrevo esse texto. Ser gay nunca foi sobre ser diferente - foi, desde o inicio, uma coisa que seria assim apenas. Eu, Caroline Fragoso dos Santos, sou gay sim, com orgulho. Não era sobre uma pessoa, sobre duas, era sobre eu mesma, o ser humano, que é igual ao outro, mas que decidiu que se sentia melhor sendo assim. 
       E não, sociedade, não mundo, não retrógrados, não é uma fase. É só minha vida, afinal. É sobre mim, é sobre aceitar. 
          É sobre amor, no fim das contas. 


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