Archive for 2012

Ninguém mais acredita em contos de fadas.


Aprecio muito a arte
de criar cenários,
com sentimentos distantes de marte
e com resultados vários
sentada aqui
nesse banco
de praia
observando, assim o que vi
e imaginei

Engraçado mesmo é pensar 
que todos tem um pensamento semelhante
com sentimentos errantes.
Estará mentindo aquele
que afirmar 
que nunca imaginou 
aquela mocinha de seios fartos
gemendo em sua cama
ou aquele moço inteligente 
falando que a ama,
mesmo sabendo que ele mente.

Acabando por terra
esses devaneios 
- nada saudáveis
venho por meio de amáveis
e pobres versos, dizer
- O montante de cenários
que imaginei 
com você;
e reforçar que esse "querer",
minha querida, sempre será o objeto, 
de tudo que escrevo
e que antes de dormir, 
meu desejo,
que é de ter, 
esse teu coração
- e várias outras coisas,
sempre será fruto desses cenários
sendo eles um produto
de um devaneio
dessas noite na praia, no sábado


Love story e suas bobagens


Ela gosta de Chico
Ele toca rock
Ela idolatra Hepburn
Ele vê filmes do Hitchcock
Ele faz filosofia
Ela faz cinema

Ela sai pros domingos de cantoria
no centro histórico
pensando em encontrar
seu filósofo
Ele diz que amor
é besteira
e que não entende a dor
da poeta
com seus mil amores errados
- provavelmente sacos de ossos salgados
mas quando os dois pares de globos oculares
se encontraram um dia na faculdade
foi como uma luta de mares
- não que isso fosse possível
E assim dias se passaram
e aquele destino terrível
se fez presente
para o filósofo

A poeta achava graça
mas tinha seus receios
"Será que ele passa?"
Mas ela sentiu que ele passava, realmente
e observava
com olhos fugazes
- duas negras circunferências
seu jeito de caminhar
e observava como ele havia mexido com seu interior
sem falar uma palavra

mas as histórias de amor são engraçadas
e a deles ainda não possuía um fim
mas como elas, já era bem amada
provavelmente, como em qualquer uma delas,
em um jardim
uma garota calada se faça ser ouvida
e pare de roer a unha
e ele consiga dizer que havia lido
um poema dela, sem querer, e que supunha
que talvez ele possa cuidar de um coração partido
mesmo não conhecendo como se faça isso
A vida, como testemunha
havia começado a modificar sua rotina
- a rotina de novos apaixonados
que realmente esperavam
que maravilhas fossem operadas
mas isso é uma outra história
- o jovem filósofo e sua glória
que, embriagado de amor
disse aos seus colegas de bar
que Eros o havia traído
e que Schopenhauer era gozador
e a poeta escrevia e voltava a cantar
- provavelmente sua dor havia vendido
então, um segurou a mão
do outro
e um desejo do cão
se alastrou
e um dia foi pouco

mas essas são outras memórias
- memórias de um observador
que era um grande inventor
de amores possíveis
basta somente esses sacos de ossos
iludíveis
se abram 
e tragam
a vontade
- o resto se constrói.


Baby, eu queria.


          Ele havia partido havia algum tempo. Comecei a parar de contar quando vi um foto dele no facebook com outra garota. Bem, era o direito dele, como era o meu também em pegar uma garrafa de vinho e esvazia-la.

          Tranquilidade era uma palavra que dominava minha vida nesse meio tempo. Era estranho não tê-lo em minha cama nessa primavera, que estava fria demais para as expectativas meteorológicas, desconfortável dividir o banco do ônibus de volta ao apartamento no subúrbio que dividimos por um tempo. Nunca imaginei que sentiria falta dele dessa forma.

          Se ele sentia a minha? Era uma questão com múltiplas alternativas e várias delas que me levariam a decadentes lágrimas. Ele me ligava, dizia que estava tudo ótimo em sua nova cidade, com seus novos amigos e várias oportunidades de encontrar uma pessoa diferente. Walk after you fazia tanto sentido que meu media player já havia classificado essa música com 5 estrelas. Nunca havia gostado de Foo Fighters antes dele, muito menos de Alter Bridge. Sentimentalismos a parte, depois que ele se foi, tive muito mais tempo de conseguir a minha tão sonhada graduação na Espanha. Se eu chegasse à Espanha, um mundo novo se abriria e essa falta que sentia do Lucas iria embora e o que ficariam seriam lembranças boas e só isso. O pensamento era tão idiota que me reconfortava.

          Desde pequena, nunca tive tudo o que desejava, então quando a maturidade veio, o que mais queria era poder reverter essa situação. Fiz sacrifícios, deixei pessoas para traz, tantas que quando certa quantia chegou, parei de contar. Mas, se eu ganhasse a bolsa de estudos em Toledo, poderia ter todos os amigos que tive que deixar, todos os amores e refazer todos os poemas. O lirismo iria voltar, os sonhos, até os sorrisos. Era uma calma e uma certeza que não sabia de onde vinha.

          Eu era uma boa atriz e uma rainha do drama nata. Era meu charme, algo que fazia meu melhor amigo rir. Mas Miguel sabia onde estava a ferida e tocava nela com força.  Um de seus argumentos era que Lucas era o único que iria aguentar minhas crises literárias e meus Beatles as quatro da manha, além dele mesmo, claro.

          Eu vivia nesses devaneios, principalmente quando estava sozinha. Era uma forma de deixar a vida mais suave, semelhante a esses livros adolescentes.
Foi nesse momento, sentada na cadeira de balanço e olhando da janela do quarto andar, ouvi batidas na porta. Abri e vi que era Miguel com duas cartas na mão e um sorriso gigante no rosto.

          - Acho que sou portador de grandes notícias. – ele disse, me abraçando.

          - Trouxe vinho? – respondi, rindo.

         Ele me olhou de cara feia e depois passou os olhos na mesa, onde havia quatro garrafas vazias de vinho.

          - Bebeu tudo isso sozinha?

          Balancei a cabeça em sinal positivo e senti o mundo rodar ao meu redor. Era ressaca?

          Ri internamente e me sentei na cadeira, antes que chão se atraísse, como mágica, ao meu corpo.

          - Quais são as boas notícias? Saiu ontem de noite e finalmente arranjou uma namorada e assim irá trocar sua fiel escudeira aqui por um lugar onde irá enfiar s-

          - Por favor, sarcasmo saindo da sua boa é ridículo, Catarina. – ele me interrompeu. – Sentir falta é normal, sabe? Já te disse que eu não te vi chorar desde que o Lucas foi embora? Você faz isso sozinha, enrolada naquele moletom fedido que ele esqueceu aqui? – ele disse depreciativo.

          - Ignorei o que você falou quando disse “ridículo”. – falei, enrolando-me em meu robe, indo em direção à janela.

          - Ok, ok, vamos aos negócios então. Tenho nossas cartas sagradas aqui. Chegaram mais cedo na universidade. – ele disse, vindo em minha direção.

          - Achava que elas seriam encaminhadas para cá. – meu coração batendo uma oitava mais alta e duas vezes mais forte.

          - Vamos abrir logo? – ele disse com um sorriso no rosto, me estendendo minha carta.

          Eu sabia que tudo iria mudar se o conteúdo daquela carta fosse positivo. A saudade, a tranquilidade, até esse desejo repentino de beber várias garrafas de vinho. Lucas se tornaria um capítulo da minha vida. Eu iria começar tudo de volta, com uma felicidade enorme.

          Abri com cuidado e li cada letra meticulosamente.

          - Fui aprovada. – falei em um fio de voz.

          Miguel olhou para mim e me abraçou tão forte que imaginei que fosse perder o ar, por alguns minutos. Eu estava em choque. Meu sonho finalmente tinha se tornado realidade. Meus esforços não foram a toa. Eram tantos pensamentos enquanto que rodeavam minha mente e quando senti os braços de Miguel me deixando, encontrei o chão. Ele ficou assustado e se sentou no chão comigo, rindo com uma expressão preocupada. Ele deve estar pensando que eu iria ter uma crise ao algo do gênero.

          - E você? Eu estou bem, abra a sua logo, por favor. – eu disse com a voz exaltada.
Ele abriu, leu rapidamente e, com os olhos iluminados, levantou seu olhar da carta e disse:

          - Eu também.

          Gritamos, rolamos o chão, gritamos mais um pouco e pulamos muito. Eu e Miguel, em Toledo. Era tudo o que eu havia sonhado.

          Com os ânimos acalmados, atualizei meu status no facebook com a seguinte frase: “Alô chicos, Toledo espera de braços abertos eu e Miguel como futuros estudantes! Muito obrigado por todos que nos ajudaram para que esse sonho se realizasse!”.
Várias pessoas comentaram e nos parabenizaram, alegres com nossa vitória. Era tão inacreditável que meus nervos ainda estavam sensíveis. Foi quando um comentário em especial me chamou atenção.

          “Lucas Santiago: Espero que isso seja o que você tanto procurou, Catarina e que isso vá valer a pena realmente. Você sacrificou muita coisa para ter essa bolsa, então boa sorte. Que sua nova e brilhante vida seja como você sonhou.”
Bom, era o que eu queria mais do que qualquer coisa no mundo. Talvez eu estivesse errada, mas só tenho uma vida, uma chance e não iria desperdiçá-la, mesmo que para vivê-la tenha que deixar o maior sonho que já tive para trás. 

Um lugar que costumávamos conhecer.



          Ele beijou minha testa, suavemente, como se não fosse a última vez. Sem querer, deixei meu livro cair no chão diretamente na poça de água que a chuva estava formando. 
          - Droga, era meu livro favorito! - exclamei.
          - Não ligue, ele já estava cansado de tantas vezes que você o leu. - ele me disse, com a voz embargada. 
          Droga.
          - Não vá. - eu disse, abraçando-o.
          - Não vá você. - ele respondeu, sorrindo. 
        - Eu queria ir, mas e os meus sonhos? Como ficam? - respondi, sentindo uma lágrima descendo, devagar como uma faca deslizando em meu pescoço.
          - Nós tínhamos planos, sonhos juntos. Nossa casa perto de uma montanha, com o rio passando... Filhos. - ele respondeu, pegando minha mão.
         - Eu quero ser grande, ser melhor que isso, quero ser alguém com que você se orgulhe. Não nasci para ser alguém que fica na sombra. Quero viajar, conhecer pessoas, escrever um best seller, ficar marcada. 
          - Você já brilha demais, Catarina. - ele disse triste. 
          - Não o suficiente. - retruquei irritada. 
         - Foram 3 anos muito bons, sabe? Suas poesias, logo de manha eram muito revigorantes  - se bem que eu gostava mais dos seus escritos eróticos. - ele disse rindo. 
          - Eu sempre me inspirava nas nossas noites, no nosso amor. - abracei-o, deixando o guarda chuva cair. Não importava mais, de qualquer forma. 
      - Eu te amei desde aquela noite, sabia? Quando você disse que estava na universidade, mostrando ser tão superior a mim, tão melhor. Mas, por incrível que pareça, você disse que fazia um tempo que tinha escrito um conto e o personagem principal tinha se personificado em mim. Você, com sua imagem alto depreciativa, com o coração partido, gostou de mim. E foi assim que tudo começou. 
       - Por favor, você não está escrevendo uma postagem no facebook, certo? - falei rindo.
          - Não, isso é clichê demais. Todo mundo sabe que eu te amo. 
          - Todo mundo sabe que eu gosto de Charlotte Brontë. 
          - Você não tá fazendo isso se tornar fácil para ambos. 
          Empurrei-o para olhar em seus olhos.
      - Olha, você me curou de tudo ruim que havia na minha vida e por isso serei eternamente grata. Eu te amo e vou amar para sempre, independente dos nossos sonhos.  Seus grossos e densos cabelos enrolados, sua voz suave e o jeito que você me toca nunca deixará de ser a melhor coisa que já tive na minha vida. E não venha com esse discurso de que estou deixando você pelos meus sonhos e que não estou facilitando. Para estar com você eu precisaria estar completa e não estou, porque meus sonhos são coisas que não posso desistir, mesmo que tenha que deixar você ir. Queria que você ficasse e então eu me casaria com você, seria feliz com minha vida normal, mas esse conceito nunca fez sentido na minha vida. - as lágrimas que estavam esperando cair vieram violentamente. - Eu te amo para sempre, Lucas. Eu só não posso desistir do que eu quero. 
          Ele me olhou profundamente, formulando uma frase coerente, mas única coisa que saiu foi:
          - Eu nunca fui seu sonho?
          - Você sempre será o maior deles. - respondi entre soluços. As pessoas passavam e nos olhavam, como se fossem loucos. 
          Ele sorriu. 
          - Acho que isso é o suficiente.   
   - Vai logo, antes que eu mude de ideia. Isso aqui não é um filme. - disse, empurrando-o. Os soluços aumentaram. 
          - Eu não quero ir. - ele disse. 
          - Você deve ir. 
          - Você tá certa. 
          - Eu te amo, certo? Nunca duvide disso.  
    - Eu te amo também. Nunca se esqueça disso. - ele disse me abraçando, depois tomando meu rosto em suas mãos e me beijando ferozmente. 
          Mais calmos, os beijos se tornaram tranquilos, para se tornarem tristes. 
          - Adeus. - ele disse, segurando minha mão. 
          Apertei-as tão forte que pensei que quebrariam seus dedos. 
         - Adeus. - falei, controlando minhas lágrimas, ainda segurando sua mão.
      - Você tem que me soltar, Catarina. - ele falou, beijando meus dedos. Não respondi, só meneei com a cabeça. Aquilo era pior do que eu via nos filmes americanos de fim de tarde. 
         Ele foi se afastando, lentamente, segurando minha mão, até que era impossível segurar por mais tempo. 
         Era o momento do adeus. 
       Soltei seus dedos, um por um, até olhar em seus olhos mais uma vez. Era o amor de toda uma vida que estava indo embora, desistindo de mim porque meus sonhos eram grandes demais. Mas o maior deles eu estava deixando ir.           
      Finalmente deixei sua mão cair no ar chuvoso. Chorei incontrolavelmente durante alguns minutos, até que me senti cansada pelo esforço. Lembrei-me do livro caído e recolhi-o, onde, por ironia, estava em uma página que me fez sorrir, apesar de tudo. O trecho em questão era do Poema An almost made up poem, de Charles Bukowski.
"se eu te tivesse conhecido teria provavelmente sido injusto contigo e tu comigo. foi melhor assim..."
          Foi melhor assim. Um dia, quem sabe, eu não esteja te vendo ir embora, debaixo de uma chuva, levando uma parte de mim que nunca imaginei que pudesse pertencer a alguém. 

reflexões de uma noite de setembro


da noite fria 
de braços gordos e vazios
eu via 
que aqueles seios que mergulhava
como nos rios
que me banhava
não tinham mais efeito

minha mente carecia de informações e data
para formular uma teoria
mesmo que mortal como faca
para entender porque meu coração não sorria

e teu corpo que me excitava
agora era nada
talvez, fossem outros braços 
que eu, agora clamava
- talvez a primavera passada
tenha acabado com o encanto

e num novembro, sozinha fiquei em uma cama gelada
nua, desfeita
perdi a calma,
a inocência, assim tu se viu satisfeita

enganou-me com discursos de amor

enlouqueceu o quanto pode
fez do frio, calor
trocou meus versos por lixo
mas hoje, nessa noite gelada
vejo que tua falácia 
era a brisa do inverno que acabou

e de outubro, novembro, dezembro
agora nada mais lembro

e espero que não se importe
porque esses versos pobres 
são só memórias de um novembro fracassado
um sorriso amargo
e seus olhos negros borrados


je te manque?


E se eu te disseste 
que todas as estrelas do céu te darias
só para que ficaste
do meu lado, tu acreditarias?
entenderias
que meu amor é teu, mesmo com o contraste
de teu gênio de meretriz
que esse coração farias
de tudo para que um sorriso aparecestes
que alcancarias 
os mais altos picos e que tu amasse
mesmo que pouco, minoria
o mundo te oferecerias
tudo, para que teus olhos de atriz
de vidro não fosses
que meu espírito malfeliz 
não apenas contigo sonhasse
que todas as flores de liz
de tu serias
sem dúvida, sem debate
sem dó nem piedade
de todas as pessoas no mundo seria feliz
até o meu ultimo suspiro infeliz
se esse teu coração sem juiz
meu fosses

Meia volta, volver - Parte 8


3 meses depois.
- Pára!
- Com o quê?
- Com isso que você faz.
- Com o que eu faço o quê, Manoela? – e riu.
- Isso de ficar cantando e olhando bem fundo para mim. – eu disse e escondi meu rosto.
Era torturante e, ao mesmo tempo, a coisa mais encantadora que eu havia visto. Era vergonhoso ficar com cara de pamonha quando ela fazia aquilo ou quando fazia qualquer coisa, pra ser mais sincera. O olhar bobo, perdido, sem reação que sempre tomava conta de mim todas as vezes que aquela garota dos cabelos amarelos fazia as “estherzices”, como eu havia denominado.  Ela era incrivelmente sedutora quando queria, e fazia isso para testar minha infinita e imaculada paciência.
- Eu sei que sou muito encantadora, Manoela.  Não precisa dizer isso sempre – e chegou mais perto para beijar meu rosto da sua forma bem sensual. Muito engraçado. Muito engraçado, Esther.
- Você precisa de noção de realidade, És. Ás vezes é bom. – e gargalhei.
Ela me olhou torto, por eu tê-la chamado de És e ficou em silêncio, deitada na cama.
- Vi que você estava meio preocupada hoje na aula. – ela disse, de repente.
- Não era nada. – disse simplesmente. Era mentira.
- Era sim, eu te conheço. – ela insistiu.
- Você não se importa. – afirmei. Era verdade. 
- Me importo sim, sua boba. - ela disse, apertando delicadamente meu nariz. - Bem, tá escrito no meu contrato de namoro, não é? – e riu.
- Ai que engraçada você, És, toma aqui um pirulito. – respondi e virei de costas na cama para ela.
- Não gosto de ver você mal, Manu.  – ela disse, se aproximando de mim. – Pode falar, farei minha cara de paisagem, aquela que eu fiz quando você começou a discursar sobre a ditadura militar. – e me beijou no pescoço.
Ignorei a ultima parte. Era a forma estranha dela de dizer: "sim, eu me importo, caramba."
- Eu sinto falta do Gabe, Esther. Acho que não fui muito justa com ele. – desabafei.
Fazia tempos que aquilo me corroia. Nossa despedida abrupta no natal passado fazia muito mal, porque, na realidade, eu queria dizer tantas outras coisas a ele naquele momento e o melhor que fiz foi ser rude, estúpida e infantil. Eu o queria de volta, porque, de uma forma maluca, eu "amava" ele, mesmo conhecendo-o  por tão pouco tempo.
- Porque Manu? Aquilo que ele tem no meio das pernas não vai te fazer gostar de homem. – ela disse irônica e levantou da cama.
- Ciúmes detected. – e ri.
- Não é ciúme. – ela disse, me olhando divertida. – Se bem que isso facilitaria muita coisa pro meu lado, sabe? Essa coisa de ser sua namorada, não ter uma barba pra roçar no meu rosto não é legal. – ela soltou.
Era esse tipo de coisa que incomodava no nosso namoro. Ela sempre negando, de certa forma, sua verdadeira opção. Ela negaria isso até o fim, se fosse necessário, e doía demais ouvir aquele tipo de coisa. Mas era isso ou nada. Parecia que a frase "eu vou te amar para sempre e nunca vou te deixar" não fazia parte do vocabulário de expressões de Esther Cruz. 
- Então porque não termina de uma vez, hein? Se livre de uma vez desse "peso" – disse, me levantando estressada.
Ela ficou em silêncio, mirando aqueles olhos exóticos e enlouquecedores nos meus, que estavam prestes a transbordar.
- Não sei, sweetie. Não sei. – ela disse, levantando-se para ficar na minha frente e segurou meu dedo indicador. - Só sei que tem algo em você que eu estranhamente preciso.
- Eu te amo também – disse, enquanto pegava seu rosto entre as mãos e a beijava.
- Eu me amo também. – ela disse entre os beijos.
Empurrei-a para a cama e fui fazendo um caminho de beijos, da boca até o pescoço, enquanto tentava abrir sua camisa, mas ela segurou firme em meus pulsos e resmungou um ofegante "opa, opa, opa".
- Qual é, Tata, estamos sozinhas aqui, seus pais vão demorar – e tentei, em vão, abrir sua camisa novamente.
- Sexta, certo? – ela disse, ajeitando sua roupa e recuperando o ar.
- Temos que terminar aquele mega trabalho de química na sexta, sunshine. – disse frustrada.
- Vamos testá-la na teoria, sweetie. – ela disse, passeado a mão pelo meu corpo.
Minhas forças, todas minadas por uma garota que adorava jogar sensualmente comigo. Muito injusto.
- Bom, eu tenho que voltar pra casa, fazer o jantar da minha mãe. – disse, me levantando. Já estava tarde e minha casa era do outro lado da cidade. Se bem que ela poderia oferecer seus braços e beijos quentes para eu repousar essa noite.
- Espera, eu... – e deixou a frase no ar.
- O quê? – eu perguntei, pegando minha bolsa.
- Eu... er, eu não queria... ter dito aquelas coisas agora a pouco... Me desculpe. – ela disse, simplesmente.
-Tá tudo bem, És. Tá tudo bem.
- Enfim, sobre o Gabriel, bem... – ela disse, meio sem jeito. – Eu vou dar um jeito de achá-lo para você, se isso a faz feliz.
 Fui em sua direção e levantei seu rosto até o nível do meu: - Obrigada mesmo. Eu amo você. – e beijei delicadamente seus lábios.
- Da minha forma, você sabe, eu também te amo.
Eu não precisava responder aquilo. Ela era a minha garota, e eu era a garota dela.  Depois de tudo o que havíamos passado, aquela tranqüilidade que pairava no quarto dela era a coisa que mais havia sonhado. Ter ela ali e poder tocar em seus lábios, deslizar minha mão em seu corpo, acordar e tê-la ali, ao meu lado, era o paraíso.
- Bom, agora eu tenho que ir. – disse, pegando minhas coisas. – E não se esqueça da lição de português, você já tem falta demais e não pode bobear.
- Tudo bem, mamãe. – e riu. – Cuidado ao voltar pra casa, já está escuro e tudo mais.
- Que linda você preocupada comigo, aw. – falei rindo.
- Vai de uma vez, Manoela. – ela disse, olhando para a tela do computador.
- Tchau, até amanha. Te amo. – disse e, enquanto fechava a porta, ouvi o sussurro dela atrás da porta dizendo “eu também”.
Talvez eu não precisasse mais do Gabe na minha vida, pensei no ônibus. Talvez minha vida esteja bem estabilizada pra trazer ele para minha convivência, porque, de certa forma, ele tinha bagunçado meus sentimentos em relação a Esther e isso não era nada bom. Eu a tinha, não importava a maneira, mas tinha. Mas existia ele, e aquele amor absurdo que surgiu em um beijo com gosto de chiclete no natal passado e nada poderia mudar isso.
Era melhor deixar como estava. Manu e Ésther, Ésther e Manu.
Foi quando vi, passando na catraca do ônibus, meu doce pesadelo. Não era possível, não, não, não... Mas ele sorriu e veio, como um fantasma, devagar e sucinto, devorar todos os meus planos, meus pensamentos, as ideias.
Então ele falou um oi alegre, estendendo a mão. Eu estava em choque e respondi ao bloqueio mental que veio em seguida de uma maneira que não esperava:
- Puta merda, Gabriel, porque diabos você tem que aparecer?

Continua.




Seguidores