3 meses depois.
- Pára!
- Com o quê?
- Com isso que você faz.
- Com o que eu faço o quê, Manoela? – e riu.
- Isso de ficar cantando e olhando bem fundo para mim. – eu disse e
escondi meu rosto.
Era torturante e, ao mesmo tempo, a coisa mais encantadora que eu havia
visto. Era vergonhoso ficar com cara de pamonha quando ela fazia aquilo ou quando
fazia qualquer coisa, pra ser mais sincera. O olhar bobo, perdido, sem reação
que sempre tomava conta de mim todas as vezes que aquela garota dos cabelos
amarelos fazia as “estherzices”, como eu havia denominado. Ela era incrivelmente sedutora quando queria,
e fazia isso para testar minha infinita e imaculada paciência.
- Eu sei que sou muito encantadora, Manoela. Não precisa dizer isso sempre – e chegou mais
perto para beijar meu rosto da sua forma bem sensual. Muito engraçado. Muito engraçado, Esther.
- Você precisa de noção de realidade, És. Ás vezes é bom. – e
gargalhei.
Ela me olhou torto, por eu tê-la chamado de És e ficou em silêncio, deitada na cama.
- Vi que você estava meio preocupada hoje na aula. – ela disse, de repente.
- Não era nada. – disse simplesmente. Era mentira.
- Era sim, eu te conheço. – ela insistiu.
- Você não se importa. – afirmei. Era verdade.
- Me importo sim, sua boba. - ela disse, apertando delicadamente meu nariz. - Bem, tá escrito no meu contrato de namoro, não é? – e riu.
- Ai que engraçada você, És, toma aqui um pirulito. – respondi e virei
de costas na cama para ela.
- Não gosto de ver você mal, Manu.
– ela disse, se aproximando de mim. – Pode falar, farei minha cara de paisagem,
aquela que eu fiz quando você começou a discursar sobre a ditadura militar. – e
me beijou no pescoço.
Ignorei a ultima parte. Era a forma estranha dela de dizer: "sim, eu me importo, caramba."
- Eu sinto falta do Gabe, Esther. Acho que não fui muito justa com ele.
– desabafei.
Fazia tempos que aquilo me corroia. Nossa despedida abrupta no natal
passado fazia muito mal, porque, na realidade, eu queria dizer tantas outras
coisas a ele naquele momento e o melhor que fiz foi ser rude, estúpida e
infantil. Eu o queria de volta, porque, de uma forma maluca, eu "amava" ele,
mesmo conhecendo-o por tão pouco tempo.
- Porque Manu? Aquilo que ele tem no meio das pernas não vai te fazer
gostar de homem. – ela disse irônica e levantou da cama.
- Ciúmes detected. – e ri.
- Não é ciúme. – ela disse, me olhando divertida. – Se bem que isso
facilitaria muita coisa pro meu lado, sabe? Essa coisa de ser sua namorada, não
ter uma barba pra roçar no meu rosto não é legal. – ela soltou.
Era esse tipo de coisa que incomodava no nosso namoro. Ela sempre
negando, de certa forma, sua verdadeira opção. Ela negaria isso até o fim, se
fosse necessário, e doía demais ouvir aquele tipo de coisa. Mas era isso ou nada. Parecia que a frase "eu vou te amar para sempre e nunca vou te deixar" não fazia parte do vocabulário de expressões de Esther Cruz.
- Então porque não termina de uma vez, hein? Se livre de uma vez desse "peso" – disse, me levantando estressada.
Ela ficou em silêncio, mirando aqueles olhos exóticos e enlouquecedores nos meus, que estavam prestes a transbordar.
- Não sei, sweetie. Não sei. – ela disse, levantando-se para ficar na minha
frente e segurou meu dedo indicador. - Só sei que tem algo em você que eu estranhamente preciso.
- Eu te amo também – disse, enquanto pegava seu rosto entre as mãos e a beijava.
- Eu me amo também. – ela disse entre os beijos.
Empurrei-a para a cama e fui fazendo um caminho de beijos, da boca até
o pescoço, enquanto tentava abrir sua camisa, mas ela segurou firme em meus pulsos
e resmungou um ofegante "opa, opa, opa".
- Qual é, Tata, estamos sozinhas aqui, seus pais vão demorar – e tentei,
em vão, abrir sua camisa novamente.
- Sexta, certo? – ela disse, ajeitando sua roupa e recuperando o ar.
- Temos que terminar aquele mega trabalho de química na sexta, sunshine. –
disse frustrada.
- Vamos testá-la na teoria, sweetie. – ela disse, passeado a mão pelo
meu corpo.
Minhas forças, todas minadas por uma garota que adorava jogar
sensualmente comigo. Muito injusto.
- Bom, eu tenho que voltar pra casa, fazer o jantar da minha mãe. –
disse, me levantando. Já estava tarde e minha casa era do outro lado da cidade. Se bem que ela poderia oferecer seus braços e beijos quentes para eu repousar essa noite.
- Espera, eu... – e deixou a frase no ar.
- O quê? – eu perguntei, pegando minha bolsa.
- Eu... er, eu não queria... ter dito aquelas coisas agora a pouco...
Me desculpe. – ela disse, simplesmente.
-Tá tudo bem, És.
Tá tudo bem.
- Enfim, sobre o Gabriel, bem... – ela disse, meio sem jeito. – Eu vou
dar um jeito de achá-lo para você, se isso a faz feliz.
Fui em sua direção e levantei
seu rosto até o nível do meu: - Obrigada mesmo. Eu amo você. – e beijei
delicadamente seus lábios.
- Da minha forma, você sabe, eu também te amo.
Eu não precisava responder aquilo. Ela era a minha garota, e eu era a
garota dela. Depois de tudo o que
havíamos passado, aquela tranqüilidade que pairava no quarto dela era a coisa
que mais havia sonhado. Ter ela ali e poder tocar em seus lábios, deslizar
minha mão em seu corpo, acordar e tê-la ali, ao meu lado, era o paraíso.
- Bom, agora eu tenho que ir. – disse, pegando minhas coisas. – E não
se esqueça da lição de português, você já tem falta demais e não pode bobear.
- Tudo bem, mamãe. – e riu. – Cuidado ao voltar pra casa, já está escuro
e tudo mais.
- Que linda você preocupada comigo, aw. – falei rindo.
- Vai de uma vez, Manoela. – ela disse, olhando para a tela do computador.
- Tchau, até amanha. Te amo. – disse e, enquanto fechava a porta, ouvi
o sussurro dela atrás da porta dizendo “eu também”.
Talvez eu não precisasse mais do Gabe na minha vida, pensei no ônibus.
Talvez minha vida esteja bem estabilizada pra trazer ele para minha convivência,
porque, de certa forma, ele tinha bagunçado meus sentimentos em relação a
Esther e isso não era nada bom. Eu a tinha, não importava a maneira, mas tinha.
Mas existia ele, e aquele amor absurdo que surgiu em um beijo com gosto de chiclete
no natal passado e nada poderia mudar isso.
Era melhor deixar como estava. Manu e Ésther, Ésther e Manu.
Foi quando vi, passando na catraca do ônibus, meu doce pesadelo. Não
era possível, não, não, não... Mas ele sorriu e veio, como um fantasma,
devagar e sucinto, devorar todos os meus planos, meus pensamentos, as ideias.
Então ele falou um oi alegre, estendendo a mão. Eu estava em choque e respondi ao bloqueio mental que veio em seguida de uma maneira que não esperava:
- Puta merda, Gabriel, porque diabos você tem que aparecer?
Continua.