Plataforma 19


      Minha mãe acabou de embarcar numa viagem sozinha. A primeira em sabe Deus quanto tempo. Mãe essa que está começando a viver apenas agora, quando boa parte de sua vida já se passou em frente a seus olhos. Mãe essa que está em uma estrada, talvez dormindo, talvez acordada. Pensando na vida, nos filhos, na vida que tem. Mãe essa que nasceu para ser uma.

      Infelizmente, nasci Caroline, não Roseli. Há algo em mim que não comporta a maternidade - sou egoísta e distraída demais para tal ato. Toda mãe sabe que, quando aquele bebê que alimentou com tanto carinho em seu ventre durante tanto tempo, respira pela primeira vez um ar por si próprio, sente que mãe cria filho para o mundo. Mãe que é mãe sabe disso desde aquele precioso segundo. A minha, bendita e iluminada mãe, soube desde cedo isso, mas ela nunca esteve preparada para perceber isso. Agora ela sabe. Ela viu. Ela sentiu.

       Algumas mamães sabem que, a partir do momento que saímos de seus ventres, o árbitro apitou o início do jogo e que demanda de nós continuarmos ele, até o fim. Que a vida não é uma fábrica de desejos, que não devemos esperar demais de ninguém, que a gasolina é cara, que vai ter copa do mundo, que seu coração vai ser pisado e você remendará ele novamente, até que o pisem novamente, que o McDonalds faz mal. Que o cursinho cansa até seu último neurônio, que o amor é conceito abstrato e que física é algo impossível de se aprender. Que sua melhor amiga falha em ser “melhor”, que a cidade te engole viva, que os paradoxos são coisas bonitas, que os seres humanos decepcionam em serem simplesmente humanos.

        Algumas mães sabem de tudo isso, naquela fração de segundo, entre o sair do ventre e o primeiro suspiro por si só. Entendem que vão ter que educar, mostrar os caminhos e depois apenas abrir a gaiola para que seu pássaro mais amado vá fazer suas próprias primaveras.

        O sono bate e minha mãe deve estar acordada em algum canto do meu estado sendo feliz por si só. Uma criatura que tive sorte em ter, já que não posso simplesmente ignorar que há mães e vilãs, mas essa é uma outra história. Essa aqui, deixo sem final, sem muita explicação, pois as rodas continuam a tocar o chão e a bola continua rolando, rolando, rolando...

13 graus

Hoje acordei com uma meia a menos no pé. O frio retornou a capital paranaense e com ele, a utilização dessas coisas pequeninas que mantêm o calor onde ele precisa estar. A parte engraçada disso tudo é olhar para um pé protegido e o outro não e você ri, mas se incomoda com aquele desequilíbrio estranho que em alguma parte da noite faz aquele pé de meia se jogar no chão.
O frio traz estranhos desequilíbrios. Com ele vem gripes, resfriados, alergias, ataques de bronquite, asma, chuvas nos piores momentos do dia e aquela sensação incômoda de que tem algo errado com o mundo e a única coisa que pode resolver isso é ficar na cama, com os par de meias protegendo seu corpo do estranho. Desequilíbrios são sempre bem vindos, em pequenas quantidades, para dar um período de adaptação. Por isso que sempre antes do inverno vem o outono. Mas é no frio que as pessoas se olham nos olhos, se vestem elegantemente, saem de casa porque querem – não que antes isso não existisse, mas fica mais evidente. Mas o desequilíbrio está aqui ainda, batendo a porta, e eu tive que colocar o outro pé da minha meia, porque havia necessidade: já estava fora da cama, enfrentando tudo o que o mundo tem de pior e de melhor. O mal humor das pessoas, o ônibus lotado, a sala vazia, as amizades complicadas, os amores que não existem, o trabalho que sufoca, aquela vizinha chata que ouve música gospel no melhor momento do dia, o colega chato no elevador: mil e um motivos para que o frio piore a vida e bem, você está de pé. Com meias ou sem meias, parado no semáforo esperando ele abrir. Você levantou da cama. Enfrentou o desequilíbrio, mesmo espirrando e desejando fugir. E você lê isso nesse momento e lembra que as gripes passam, que a tosse vai embora e que sempre há uma forma de voltar para sua cama quentinha. Lembra do chá ou do leite quente que sua mãe levava na cama quando você se sentia mal e não queria ir pra escola, relembra do toque suave das mãos dela e do cheiro de alho, sabão ou giz que vinha como um conjunto. Sabe que no fundo, essa gripe que te assola nessa tarde fria te deixa ranzinza e brava com o mundo, mas isso sempre passa e bem, a vida continua e o semáforo abre. E você vê o ônibus que precisa pegar pra não chegar atrasada na aula, no trabalho ou no médico e faz a matemática: terei que correr. E você corre, corre e sente aquele vento frio cortando, queimando, mas você sorri. E bem, isso pode ou não mudar o seu dia, mas você sorri de qualquer forma, porque sabe que sorrir é o melhor remédio.
E agora eu conto os meses para a primavera, minha estação favorita, porque o inverno quase bate a minha porta. Conto os meses para que minhas meias sejam guardadas no fundo da gaveta, junto com meus remédios de gripe e resfriado. Não porque não goste do frio, de maneira alguma – mas sim porque consigo colocar meus pés nus no chão, sem medo de perder meias durante a noite. 

Constelações

      Minha mãe sempre diz que sou teimosa e que eu deveria deixar de ser assim. Acho que isso é sina de aquariana ou coisa minha mesmo. Sou deveras persistente, geralmente com coisas que não valem tanto assim. Engraçado como o ser humano é, se comporta: ele não desiste, principalmente de coisas difíceis. É murro em ponta de faca, é colocar a mão no fogo, sentindo prazer nisso. Como os seres humanos são. 
      A teimosia que possuo acabou resultando em sonhos. O maior deles é ir embora daqui, colocar o mundo nas costas, desbravar por ai e sair desse lugar que me engole. Essa minha persistência em ser gente grande de uma vez e alcançar o céu me deixa nostalgica de um tempo em que meu desejo era ganhar uma caixa de bombons só para mim. Ser teimosa me dá dores no estômago, mas dá a comida para os sonhos, não os deixa morrer. Costumo crer que, toda noite, enquanto vejo o céu estrelado, os sonhos brilham. É de conhecimento geral que as estrelas que vemos no céu já estão mortas há muito tempo, que apenas enxergamos sua luz. É assim que faço minha analogia. Sonhos são como estrelas mortas - elas não existem mais, mas continuam a emitir luz. Nosso céu, que nos cobre todas as noites, é uma grande constelação de sonhos teimosos que nunca desistiram de brilhar.
      Talvez seja por isso que os seres humanos sejam tão interessantes. Não desistem, nunca. Nada morre - tudo possui seu brilho e será eterno, enquanto alguém olhar para o céu e  acreditar que os sonhos nunca deixam de existir dentro de si, mesmo nos períodos de desesperança. Minha mãe que me perdoe, mas a teimosia fica. Para sempre.

Heathrow

      Me apaixonei. É, me apaixonei. Não, estou feliz sim. Claro que estou. Ah, como ele é?
    Ah, é mesmo, esqueci desse detalhe. Me apaixonei por um lugar. Londres é o meu amor.
     Foi amor a primeira (não) vista. Amei Londres como uma mãe ama o filho que ainda está no seu ventre, sem nem menos ter visto seu rosto. Esse amor cresceu em mim como uma pequena árvore, que aparentemente não daria frutos. Acreditava que tal sentimento por uma cidade seria facilmente erradicado de meus pensamentos e, de certa forma, do meu coração. Foi então que algo estranho aconteceu: o sentimento floresceu. Criou frutos. Sonhos. Ficou maior do eu mesma, tomou conta de mim.

         É a sensação de toda uma vida. A súbita realização que seu lugar no mundo não é aquele que você acreditava ser, naquele em que você nasceu, que deveria ser o lugar onde seu coração está. O entendimento que seu coração é maior que globo terrestre e que nele engloba muito mais do que você imagina. As borboletas no estômago pela singela menção do nome numa conversa ou uma foto em um livro. Aquele arrepio sucinto que ultrapassa a nuca quando você se imagina andando pelas ruas, conhecendo os lugares que havia imaginado por tanto tempo. A lágrima que escorre toda a vez que você sente o coração batendo mais forte, com saudade de um lugar que nunca tinha conhecido. Aquela ideia que sempre transita na cabeça, que te faz viver com um sorriso e um objetivo na mão. Você sente que há algo de errado e que isso precisa ser mudado com urgência. Seu lugar não é mais aqui. Seu lugar é lá. Seu coração mora distante de você e a necessidade de reavê-lo é imensa. Ele só espera que você vá buscá-lo e vá viver, finalmente. É basicamente isso.
      Meu ser sente amor por uma cidade que nunca conheci. Afeto por um lugar que cheira a história, a literatura, a sonhos, a um rio Thames que volta e meia cheira mal, mas isso é algo que acontece. Não sou tola achando que a cidade não possui seus problemas, suas imperfeições como qualquer outro lugar do mundo. A idealização, nesse caso, possui limitações.
      O bom de se apaixonar por uma cidade é que esse amor acaba automaticamente sendo correspondido. O problema é vivê-lo. Há uma parte de mim que entende que minha vida está naquela cidade, que sabe que toda a solidão vivida aqui, lá não incomodará tanto. Será uma solidão londrina, uma que será interessante de viver. É como se tudo não fosse doer nunca mais, como se desembarcar no aeroporto de Heathrow me desse uma passagem também para uma vida sem tristezas. Nessa linha de pensamento, consigo ouvir dizeres engraçados sobre Paris, por exemplo. "Se for pra sofrer, que seja em Paris." A concepção é ingênua, mas arrisco a dizer que faz sentido. A realização de um sonho muda a ideia de vida de uma pessoa. Simplesmente, não há mais a necessidade de tristezas, de dores, de decepções, como se esse amor fosse curar um coração maltratado pelas situações antes vividas, simplesmente pela inalação de um ar poluído de uma cidade que você apenas conhecia por fotos, vídeos, relatos.
      É nesse ponto que seres humanos são intrigantes. É engraçado que o amor mova tantas coisas, cause dores e, ao mesmo tempo, tenha o poder de curar. Como ele pode salvar e ao mesmo tempo, matar. Tudo o que ele desperta nas pessoas. É interessante, não é? Como existem tantas antíteses dentro de uma palavra, apenas. É bonito que todo um coração chore porque quer poder vislumbrar, de sua janela do seu apartamento, uma cidade que nunca dorme, uma que chove quase todos os dias do ano, uma que tem uma rainha, que tem um relógio gigante, que parece ter parado no século XIX, mas que é só impressão mesmo. Como isso pode dar vontade de ser gente grande e conquistar os mares. É belo que, por causa desse sentimento simples, meus dedos escrevam frases tentando alcançar aquilo que parece impossível.
      O amor tem poder de mudar. De fazer lutar. Faz as pessoas alcançarem o céu, o mar, nuvens de poeira e sonhos. Sei que um dia, serei uma marinheira rumo ao meu porto, e que irei ancorar muito bem meu barco ao farol, para que não vá embora. Um dia estarei indo ao encontro do meu amor, da cidade onde meu coração vive. Lá ele adormece, esperando o dia que eu volte para colocá-lo novamente no meu peito, para que possa enfrentar a maior aventura da sua vida: viver feliz na cidade que nunca dorme.

Instrução

     Enrolei a caneta novamente no meu cabelo. Canetas são ótimos prendedores de cabelo, pelo menos para mim. O ônibus lotado de uma sexta feira cansativa e um celular no colo, com o player de música no aleatório. Aquele lugar cheirando a trabalho, cansaço, a alegria da chegada do fim de semana, a monotonia da vida toda confinada naquele meio de transporte. 
     Não existe lugar mais solitário do que um ônibus ou lugar com grande aglomeração de pessoas. Você vê rostos, vê as cenas, imagina o que se passa na cabeça dessas pessoas, mas elas estão todas vestindo suas máscaras, seus sorrisos falsos, suas facetas cansadas. A solidão que toma conta de toda uma população que apenas busca um momento de paz em suas vidas. O ato de enrolar essa caneta no meu cabelo muda toda a percepção que tenho das pessoas, ou talvez da minha vida, ela que anda um tanto quanto cinza ultimamente. 
     Meus cabelos caem nos ombros, de vez em quando e eu os deixo lá. Não importa o quão bagunçado ele esteja, o deixo sentir o vento que vem, de vez em quando - os verões em Curitiba sempre deixam os ventos de fora de sua programação. As pessoas notam meus cabelos caídos, mas não me importo. Ninguém se pergunta porque a garota deixa o vento beijar seus cabelos, mas nem ela sabe, certamente. Talvez ache que seus medos sejam apagados e suas perguntas, respondidas. Ela apenas quer, desesperadamente, ser feliz, com os cabelos soltos naquele ônibus que fede a decadência humana, ficar sozinha com suas madeixas. 
     Mas sabe qual é o problema? É que ninguém entende. Se importa. Ninguém. As pessoas são egoístas, tanto quanto eu sou, querendo manter a coisa que mais amo por perto, sem me preocupar com o que ela pensa ou não. As pessoas são más, machucam, destroem aquilo que amam, porque o ser humano é 50% destruição e 50% construção. Isso corre no nosso sangue desde que somos o que somos. Destruir e reconstruir. As pessoas fedem a seus sonhos, suas ambições. Aos seus pensamentos e ilusões, tão características a esse século, mas isso não nos impede de pegar o ônibus lotado às seis e meia da noite pensando o quão seria bom que tivéssemos amigos - pelo menos eu penso assim. Nunca vamos parar de sonhar e é isso que importa, na maioria das vezes, dessas pequenas ilusões que nos mantém de pé, nesse ônibus lotado e, ao mesmo tempo vazio, chamado vida. 
     Meus cabelos caem nos ombros e não ligo mais. Apenas pego minha caneta e os enrolo novamente. É verão, afinal. 

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