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Bonus Track ''Meia Volta, Volver!'' - Por Enquanto



6 meses atrás...



Manoela

Era meu aniversário. Estava esperando muito pelos meus 17 anos, mais do que qualquer coisa. Antes de sair de casa, estava com um frio na barriga, uma sensação estranha de que algo iria acontecer naquele dia.

Comemoraria meu aniversário numa pizzaria no centro, junto com meus amigos. Meu medo era que ninguém fosse, mas, quando cheguei lá, todos estavam, sorridentes até por me ver. Era difícil eu arrancar aquele tipo de reação das pessoas.

No entanto, estava faltando um. A mais importante.

- João, cadê a Esther? – perguntei, tentando disfarçar a tristeza.

- Então, você sabe como ela é, Manu... Não sei não se ela vem. – ele disse. – Talvez ela...

- Talvez nada João. Eu estou aqui. – Esther interrompeu, sorrindo para mim.

Corri para abraçá-la.

- Você veio... O meu presente veio. – eu disse, suspirando feliz.

- Eu não iria faltar. Ouvir música numa terça a noite parecia tentador, mas vê-la nesse vestido e de salto era um programa muito mais atraente. – ela disse, me olhando da cabeça aos pés. Enrubesci.

- Merda, Esther. Você é uma idiota mesmo. – disse, apertando suas bochechas.

Foi então que, me surpreendendo, ela me deu um selinho. Fiquei confusa com aquilo, mas somente sorri, enquanto ela piscava e se dirigia para se sentar a meu lado na mesa.

Eu tinha meu top cinco de dias perfeitos. Esse, com absoluta certeza, estaria em primeiro lugar. Teve de tudo: garçom derrubando copos, a Joana ficando bêbado com Fanta Uva, eu, Esther e o gasparzinho cantando Kelly Key no karaokê... Foi tudo tão legal e perfeito que quando o gerente chegou em nós, falando que eles iriam fechar, ficamos tristes. Muito. E demos muitas risadas depois de termos ficado tristes, vendo as fotos insanas que tínhamos tirado.

Os últimos a irem foram Esther e João, que ficava forçando a barra entre mim e ela. Ele queria tanto me ver feliz que até enchia o saco aquilo, era sufocante, mas o amava muito, e eu, muito mais do que ele, queria que aquilo que andava sonhando se tornasse verdade.

Foi só quando ele foi embora que ela me disse:

- Falei pra minha mãe que ficaria na sua casa hoje. – ela disse sorrindo.

- Desistiu de ficar correndo lá de casa então? Até que enfim... – disse, abraçando-a.

- Vamos como amigas, certo? – ela disse fria. – No máximo que vai rolar e umas cócegas debaixo do edredom, nada mais. Você é meio danada, então... – ela disse divertida, enquanto deslizava sua mão pelas minhas costas.

Dei risada e liguei para a minha mãe nos buscar.  Já no carro, era um pouco perceptível um nervosismo entre nós. Meu coração já estava batendo rápido, querendo que chegássemos logo ao meu apartamento. Quando finalmente chegamos, tudo se atenuou de tal forma que eu estava tremendo quando apertei o botão do elevador. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo.

- Então meninas, nada de conversas até muito tarde. – minha mãe disse, enquanto ajeitava o colchão no chão da sala.

Olhei para Esther e vi que nem ela e nem eu estávamos com sono e a fim de levar aquilo que minha mãe disse a sério. Decidi pegar meu pen drive e colocar na tevê, para assistirmos a um filme qualquer que estivesse lá.

- Nunca vi esse Lost And Delirious. – ela disse.

- Vamos ver esse então. Deixa eu desligar a luz aqui. - Desliguei a luz e me joguei ao lado dela.

A história do filme era tensa. Uma garota perde a mãe e vai para um colégio interno, onde conhece duas meninas, que tem um relacionamento, mas que, num determinado momento, é descoberto, e elas tem que se separar. O desfecho não poderia ser mais trágico.

No final, o silêncio imperou na sala. Só se ouvia a recém chuva, que caia tranquilamente. Esther olhava os créditos sem nenhuma atenção.

- Gostou? – perguntei. Minha voz estava tensa.

- Sim, sim. – ela disse, seca, e foi se levantando do colchão, em direção à porta.

- Aonde você vai? – perguntei, tentando, em vão, pegar em sua perna.

- Embora. – ela respondeu, destrancando a porta.

Balancei a cabeça e fui em sua direção, falando no corredor que dava acesso as escadas:

- Esther, volta aqui! – Mas ela não me ouvia, e nem parou.

Peguei o elevador e desci corri até o estacionamento, onde vi que ela estava parada, me olhando.

- Você tá louca? – disse, quando estava chegando perto dela. – Tá chovendo, volta pra dentro!

- Eu vou embora daqui. – ela disse com raiva. - Você colocou aquele filme de propósito, não foi? Para que tivesse que escolher, que desse em cima de você, para eu tentar te beijar novamente, não é? Manoela, você é... Meu Deus, como eu pude ter ido tão longe, te envolvendo nisso? – ela disse, gesticulando nervosamente.

Fiquei nervosa com aquilo. Quem era ela para falar daquele jeito comigo? Ah, lembrei: ela só é a garota que eu amo, nada mais.

- Você é covarde! Infantil! Para de tentar correr disso – cheguei mais perto dela e ela se afastou, me olhando com raiva.

- Vai embora Manu! – ela gritou.

Peguei-a pelos ombros e comecei a falar tudo:

- Sua criancinha indefesa, para com isso! Eu disse milhares de vezes para você que te amava, que lutaria por isso, para que pudéssemos viver isso e o melhor que você soube fazer foi correr, fugir, escorregar, esnobar, mudar de assunto! Caramba, é tão difícil você ver que eu lembro todos os dias daquela noite, da noite mais perfeita de toda minha vida... Eu vejo que nem disso você lembra mais... – eu já estava chorando nessa parte. – É tão difícil assim você entender que eu te amo?

Ela me olhou triste nesse momento. A chuva ficou mais forte também.

- É muito difícil sim. Mais difícil ainda é ver você assim por mim. E me lembro daquela noite, lembro de tudo, porque... Ah, Manoela, eu também amo você, mais do que você imagina. – ela disse sorrindo. – Eu só não queria, merda, te levar para uma coisa que é dolorida demais. Eu ainda vou tentar entender tudo isso, o de amar você. Prometo. – ela finalizou.

Coloquei uma mão em seu rosto.

- Tudo bem. Temos tempo. – disse antes de encostar meus lábios nos seus.

Foi estranho, no inicio, mas era com que eu sonhava, dormindo ou acordada, todos os dias. Beija-la era o que eu mais queria, era o que me fazia acordar todos os dias.

Abracei-a e fomos, em silêncio para cima novamente.

Estávamos molhadas, então, tínhamos que tomar um banho antes de dormir. Ela foi primeiro, enquanto eu tentava entender e ver que aquilo era verdade, nada de sonho. Eu estava feliz.

Ela terminou rápido e eu entrei. Fiquei lá, passando o sabonete pelo corpo e lembrando do beijo que ainda estava vivo em minha boca.

Interrompendo minhas conclusões, ouvi batidas na porta do banheiro.

- Quem é? – perguntei.

- Sou eu. Posso entrar? – Esther perguntou, com um fio de nervosismo na voz.

- Entra. – respondi.

Ela entrou, com a cabeça baixa, mas logo levantou e me olhou dos pés a cabeça, com um jeito malicioso e um tanto sexy, eu diria.

- Sua mãe ouviu o barulho do chuveiro e perguntou o que tinha acontecido. Eu disse que a gente ficou no tédio e foi cantar na chuva. O pior foi que ela acreditou. – e deu risada.

- Minha mãe não raciocina bem ás 2 horas da manhã. – eu disse sorrindo.

- Então, eu vou lá pra fora... – ela disse, baixinho, e se virou para abrir a porta.

Era a minha outra oportunidade. E eu não iria perdê-la. Sorri e disse:

- Você quer ir mesmo? Assim, você está linda nesse meu moletom, mas... – sorri e deixei no ar.

Ela me olhou, sorrindo incrédula, e disse:

- Aquilo lá embaixo foi um beijo, não um pedido de casamento.

- Você me disse uma vez que precisava usar aquilo que pensa... Acho que chegou a oportunidade. – disse divertida.

Ela me olhou mais uma vez, balançou a cabeça e trancou a porta.

- Pervertida... – disse, enquanto tirava a roupa e entrava no box.

Ela já era linda com roupa. Sem... Deus me perdoe por cair no pecado da carne!

- Isso vai ser bom. – disse, beijando-a.

Tudo tomou seu rumo naquele momento. Eu nunca imaginei minha primeira vez com uma garota no banheiro, mas, aquilo foi tentador demais. E um pouco precipitado, insano, mas foi a loucura mais doce e prazerosa que já provei na vida. Ficamos lá por um bom tempo, até ficarmos cansadas.

Quando fomos deitar no colchão, para descansar depois daquilo, ela deitou em meu ombro e disse, com os olhos brilhando:

- Eu não tenho coragem nenhuma de te deixar depois disso. Nunca mais, mesmo. Não tem como. Eu te amo. – e me beijou suavemente na boca.

- Eu te amo também. – e a apertei mais a meu corpo, para sussurrar:

- I can’t live without you / I can’t live without your love…

Antes de finalmente adormecer, fiz uma pequena correção:

Aquela era a melhor noite da minha vida, sem mais.

Meia Volta, Volver! - Parte 4

Eu estava ouvindo sinos e Led Zeppelin mentalmente enquanto aquela imagem se fixava em minha frente. Ela tinha um jeito tão delicado e era fruto dos meus sonhos, eu sei disso. Mas algo não fazia parte desse sonho: o sol estava me cozinhando. É, era verdade.
Eu tinha que ir lá. Não poderia deixá-la escapar. Mais uma vez, eu seria um banana.
Fui indo, pensando em várias palavras, várias desculpas, várias coisas, várias merdas. Era um turbilhão de coisas e eu não estava conseguindo diferenciar o que poderia ser dito e o que não. Chegando perto dela, senti o cheiro de seu cabelo, recém-lavado, todo puxado para trás, em um rabo de cavalo mal feito. ‘’ Just a fool to believe... ’’
Nessas horas eu me pergunto: onde está o pouco de razão que me resta? Acho que foi tomar uma vodka por ai.
- Manu, é você? – disse simplesmente. Toquei suavemente em seu ombro, para não assusta-la. A sutileza nunca foi meu forte.
Ouço um alerta de invasão em minha mente. Tem algo invadindo minha vida. Game Over, Gabe.
Ela não se virou para ver quem era. Somente respondeu:
- Acho que tem alguém mexendo seus pauzinhos por ai. Ou você anda me seguindo. – ela disse, disfarçando um sorriso.
- Um pouco difícil essas suposições. Posso me sentar aqui? – perguntei, com uma voz, digamos, um pouco doce demais. Danger.
- Claro. – ela disse, abrindo sua coberta para que eu me sentasse ali. Estava meio úmido o lugar, pelo orvalho, o que dava aquela cena um quê de filme de romance.
Não vou fazer comentários mais, isso está me estressando.
- O que você faz aqui, às 7:30 da manhã de natal? – perguntei, curioso como sempre.
- Poemas. Eles estavam em minha mente, loucos para escapar, mas eu os segurei e agora eles estão aqui. Todos eles. – ela disse, fixando seus olhos em mim, sorrindo delicadamente. Aquilo me deixou tonto. Ela era... Ela era perfeita.
- Oh sim. Eu estava com algumas rimas por aí. Só que eu as deixei. Elas meio que tem vida própria, sabe? – disse, com um pouco de humor.
E ela continuava a me olhar, fixamente. Parecia ter perdido algo muito importante em meus olhos. Já eu, havia me perdido nos dela.
Isso, como das outras inúmeras vezes, soava extremamente romântico, coisa que eu não era, uma que eu nunca vou ser. Então, porque eu estava pensando daquela forma? Essa garota tinha, em alguns minutos, roubado a minha paz. Uma garota que eu mal conhecia, uma que era encrenca, uma que provavelmente não valia a pena.
- O quê foi? Está tudo bem? – perguntei para ela.
Ela sorriu, triste.
- Eu estou muito bem. É que eu estava me lembrando de uma música agora. Across The Universe. Conhece? – ela disse, voltando ao normal.
Então, ela gostava de Beatles? Nem digo mais nada.
- Ela e mais as outras 300 músicas dos Beatles. – eu disse, sorrindo. Aquilo iria me dar 10 pontos, com certeza.
Seus olhos brilharam diante da minha resposta.
- Deus, é tão difícil encontrar alguém que goste deles. Estou chocada.
- De certa forma, eu também. – eu disse. Havia dor naquilo.
Silenciei depois.
Céus, o que estava acontecendo comigo? Como isso pode estar acontecendo? De verdade, aquilo parecia obra do demônio, porque, eu não conseguia acreditar que apenas uma garota, de modos simples, poderia ter virado meu mundo de tal forma. Uma que eu mal conhecia.
- Então, eu tenho que ir. – ela disse, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Levantou-se e começou a andar, sem olhar para trás.
Gabe, você é um banana. De novo, deixando essa garota fazer o que quer?
- Espera aí um momento, Manoela. – eu disse, e ela parou.
- O que foi, Gabe? – ela respondeu, de costas e cabeça baixa.
- Você está perdendo a sua chance de ser feliz. E sei que a felicidade na sua vida não é uma coisa muito frequente. Não é na vida de ninguém. Pense nisso. Agora você pode fugir, é o seu melhor dom. – eu disse.
Nas últimas 24 horas eu estava sendo dramático demais, sério demais, ator demais, sofredor demais.
Não eu tenho outras palavras para isso. Talvez eu estivesse sendo humano demais.
Ela se virou, com raiva, se jogou em meus braços e colou sua boca na  minha. Eu estava assustado, aquilo foi muito rápido para que eu pudesse entender. A única coisa que eu tinha em mente era retribuir seu beijo.
No meio de tudo aquilo, ela agarrou minhas mãos e colocou-as em suas costas, por dentro do moletom, enquanto ela fazia o mesmo comigo. Soltei seus cabelos e seu perfume me enlouqueceu.
A volúpia era grande, e a vontade de parar não estava em meus pensamentos.
- Não é isso que você quer? Sexo é o que você quer? É sempre o que vocês, homens, querem. – ela disse, entre os beijos.
Parei no mesmo momento. O que ela achava que eu era? Qualquer um?
Empurrei-a. Doeu fazer aquilo.
Ela me olhou triste, e com raiva, ao mesmo tempo. Depois começou a chorar. Abracei-a e ela chorou ainda mais.
- Acalme-se. Está tudo bem. Venha, vamos para a minha casa, tomar uma água. – eu disse, tranquilo.
- Não precisa não, Gabe. Eu vou para a casa. – ela disse, se soltando de mim delicadamente.
- Tudo bem então. – eu disse. Eu tinha que dar um jeito de vê-la mais uma vez hoje. Foi então que uma ideia me veio à mente.
- Tem uma feirinha no centro histórico. Você não quer ir até lá? Vai ser legal, tem umas bandinhas que ficam tocando a noite inteira lá. – perguntei.
Ela sorriu, feliz.
- Eu adoraria, Gabe. – ela disse. - Você é um anjo mesmo. – e me deu um beijo suave na boca. – Até de noite.
E ela foi, acenando até desaparecer entre as árvores.
Aquilo havia sido a coisa mais louca que eu havia provado em toda a minha vida. E eu estava muito feliz.
Talvez, não fosse tão ruim assim cuidar disso. Cuidar dela.
No momento, aquilo era o que eu mais queria: ela.

Continua.



Meia Volta, Volver! - Parte 3




As luzes nas casas piscavam incisivamente enquanto caminhávamos pela rua abaixo. Eu tinha várias perguntas em mente, mas nenhuma delas parecia adequada. Elas pareciam muito ofensivas, eu achava. Então, peguei a pior delas, uma que eu faria pra qualquer idiota que aparecesse na minha frente.
- Isso não te incomoda? – perguntei, apontando para as árvores cheias de pisca-piscas que haviam pelo caminho.
Ela me olhou torto, mas deu risada. É, eu faria o mesmo gesto se alguém que conhecia a poucas horas, me fizesse uma pergunta dessas.
- De certa forma, sim. Há várias dessas perto da minha janela. À noite, o reflexo bate exatamente no meu rosto. – ela disse divertida.
- Eu também não. É desnecessário isso, em minha opinião. Natal é só mais um feriado sem graça. – disse um pouco amargurado. Talvez eu tivesse razão.
Vi que ela demorou um pouco para responder, até diminuiu a velocidade de seus passos. Ela tinha um jeito muito delicado de andar, parecia se mover como uma bailarina.
- Natal é uma data linda. Mas eu nunca, mesmo quando era criança, senti isso tudo que dizem, de amor, de sentimento natalino e tudo mais que eles pregam nessa época. Acho isso só marketing. – e deu de ombros. – Não é que eu não goste, mas... Ah, é complicado. Minha mãe diria que é coisa do capeta. – e deu risada.
- Temos a mesma visão. E, pelo visto, nossas mães pensam da mesma forma. Acho que mãe é tudo igual mesmo, não é? –e sorri para ela.
Ela concordou com a cabeça, enquanto olhava para frente. Parecia mergulhada em seus pensamentos. Dessa forma, pude prestar mais atenção em seu rosto. Ela tinha grandes maças do rosto, olhos expressivos, mas não muito grandes, uma boca também não muito grande, e cabelos na altura do ombro, com uma leve ondulação nas pontas. Era linda. Demais, eu diria.
De repente, ela parou.
- Porque você ainda está aqui? Por quê?
Fiquei sem ação. Ela estava me encostando na parede, no sentido metafórico da palavra.
- Boa pergunta. – e silenciei. Queria poder ter a resposta para essa pergunta também. Acho que eu a perdi nos olhos dela. Isso soava romântico demais.
- Eu não presto. – ela disse, triste. – Eu me sinto como um garoto agora. Um garoto lazarento e muito ruim. – concluiu, amarga.
- Independente de você prestar ou não, eu quero poder conhecê-la para saber se isso é verdade. Mas, parece que você não quer isso. – eu disse triste.
- O problema não é esse. Talvez seja, mas... – e começou a esfregar o rosto – Eu não sou digna disso. – ela disse com a voz abafada.
Eu iria começar com meu discurso moralista. Um que eu odiava, mas, poderia dar certo. Moralismo nunca foi uma coisa que eu gostava, era mais só pra levar as pessoas no papo, na maioria das vezes.
- Todo o ser humano é ca...
- Dane-se! – ela me interrompeu. – Gabriel, sério, não dá. Você é bom demais para esse ser aqui. – ela disse com raiva. – Eu amo uma garota, eu bebo, odeio natal, sou um ser humano desprezível. E isso é só o começo das coisas ruins que fiz. – ela disse, com a voz cheia de arrependimento.
Eu a abracei. Ela se soltou, depois de alguns segundos, e correu pra longe. Estava começando a considerar a idéia que essa garota deveria fazer algum esporte que envolvia corrida, porque, pelo amor de Deus!
Consegui alcançá-la e peguei em seu braço, com toda a minha força esquelética, e a girei, colocando-a em minha frente.
- Qual é o seu problema? – comecei. – Você sempre foge dos problemas assim? Não que isso seja um, mas, Manoela, isso é idiota! Fugir não vai te fazer esquecer! – despejei.
Ela estava com os olhos vermelhos, tristes. Dava vontade de pegá-la em meus braços e fugir para longe com ela, para onde ela não ficasse dessa forma. Isso, novamente, soava romântico demais. Vejo perigo aí.
- O meu problema é esse. – ela disse, com um sorriso triste. – Fugir ameniza a dor. – ela concluiu, com a voz embargada.
Coloquei uma mão em seu rosto, confortador.
- Não é necessário. Só isso. – eu disse, tranquilo.
Ela sorriu, doce e suspirou.
- Você honra seu nome. E eu sou um demônio, um djin. – e se afastou de mim, dando-me as costas. – Vai embora, vai. É melhor. Eu serei a vaga lembrança de uma terrível noite de natal. Daqui 21 dias, nem isso vai restar.
- Tudo bem. – concordei, de início. – Mas a gente vai se ver muito ainda. Daí você vai ser obrigada a ficar do meu lado, não importa o que isso signifique.
Ela se virou, me olhando triste. Ela ficou ali, deixando a brisa bater em seu rosto, balançando seus cabelos, até sorrir para mim e ir embora.
No meu coração, aquilo era um conforto. Ela não argumentou. Deu-se por vencida, eu acho. Por enquanto.
Segui meu caminho reto, enquanto ela virou na rua que cruzava com a que estávamos. De repente, ouvi ela me chamar, bem longe.
- Gabriel!
Virei-me e ela estava parada no meio da rua, me olhando.
- Caso a gente não se veja amanha, minha casa é ali, na avenida principal. Dei uma volta desnecessária por sua causa, sabia? – ela gargalhou alto. – É uma casa no estilo antigo, mas que foi restaurada e tudo mais. É no número 189. – ela gritou, para que eu pudesse ouvir bem.
- Caso o mesmo aconteça, a minha é na rua Albert Einstein, número 366. – gritei para ela. Era natal, poderia gritar até as 2 horas da manha, eu acho.
Ela ficou parada por um tempo, em silêncio. Depois, quando se moveu, gritou para mim novamente.
- Obrigado. E feliz natal. Não precisa gritar um ‘’eu também’’ cordial, preserve sua voz. Vou correr agora, tchau.
E ela correu mesmo. Sorri e continuei meu caminho, até minha casa, que não era muito longe dalí.
Chegando lá, encontro as luzes apagadas. Um bom sinal, não precisaria ouvir minha mãe e sua ladainha desnecessária. Na varanda, avistei o Pedro, jogado na espreguiçadeira. Ele estava acordado, então, dele eu não escaparia. Fui até lá e sentei no chão mesmo.
- Onde você tava moleque? Teus pais estavam te esperando para a ceia, mas, quando deu meia noite e tu não tava aqui, o seu pai só deu de ombros e disse que eles já estavam acostumados com aquilo. – e deu risada.
- Porque você tá aqui no escuro? Tem uma lâmpada aqui. – e apontei para cima.
- No escuro é mais legal. – e fez seu ''hahaha'' característico. – E, mesmo nessa escuridão, dá pra ver que você tá com uma cara esquisita. – ele disse, desconfiado.
Fiquei em silencio. Não faria diferença dizer ou não a verdade para ele. Mas ele era meu amigo.
- Conheci uma garota. – disse simplesmente.
- Isso é bom. Voltou a procurar, então? – e deu risada.
- Não é bem assim. Ela apareceu do nada. Não pude fazer muita coisa pra evitar isso. Eu tive que fazer jus a meu nome, sabe? - eu disse, irônico.
Novamente, isso soava muito romântico.
- Nossa. Psicodélico isso. - ele disse meio grogue.
- Vamos cantar, cara? Tenho uma música perfeita para ela. – eu sugeri.
- Ah, já até sei. – Ele disse, sorrindo. – ‘’ She's like the wind through my dreams, she rides the night next to me... ‘’ - ele começou.
- ‘’She leads me through moonlight, only to burn me with the sun, she's taken my heart, but she doesn't know what she's done ‘’ – continuei.
E assim fomos até altas horas. Dormi bem  pouco e acordei cedo, com o som dos pássaros piando. Decidi fazer uma caminhada pelo campo verde que havia ali perto, para pensar um pouco na vida e achar o sono perdido. Sentei-me em um muro de madeira que havia ali e comecei a escrever, mentalmente, algumas rimas.
Foi quando, no meio da campina verde, avistei alguém, com o pequeno cabelo amarrado para cima, de moletom azul.
Era ela, com um caderno e lápis em mãos. Manoela estava ali.
É nessas horas que eu digo: Preciso cortar a tal mão do destino.

Continua.

Meia Volta, Volver! - Parte 2

Foi um beijo longo, demorado. Tinha gosto de chocolate, marshmallows, coca cola e vodca. O cabelo dela estava no meio, dava para sentir isso também. Ela tinha corpo, isso não dava para negar, mas eu era um rapaz de respeito, nunca ‘’avançaria o sinal’’ com aquela garota. Ainda mais com ela. Parecia mentira, mas eu meu jeito. Alguns diriam que eu era gay.
De repente, ela parou. E me olhou, sem graça.
- Faz muito tempo que eu não beijo um garoto. É uma sensação diferente, isso eu não posso negar. – e deu risada.
- Faz tempo que eu não beijo também. Mas, eu sempre beijei garotas. Então, nem posso falar nada. Mas, seu beijo tem gosto de vodca e chocolate. Te digo, é maravilhoso. – e sorri.
Ela ficou sem graça.
- Isso foi o elogio mais bizarro ao meu beijo em 16 anos. Você é original, isso não posso negar. E seu beijo tem gosto de... – e fez uma pausa. – de chiclete de morango. Adoro morango. – e me abraçou.
Fiquei pensando na órbita dos planetas naquele momento. Parecia que eu estava em outra dimensão. Eu queria que aquilo fosse infinito. Eu estava tendo pensamentos românticos demais.
- Vai durar quanto tempo isso? – eu perguntei, sentindo o perfume dos cabelos de Manoela. Não sabia por que tinha perguntado aquilo para ela. Piegas demais. Credo.
- Não sei. Também, não importa. – ela disse, me apertando ainda mais a ela.
Ficamos naquilo durante muito tempo. O vento batia, as luzes piscavam.
Ali, eu percebi. Eu seria dela por muito tempo. Aquilo tinha um gosto agridoce.
Mas, a aura de amor que eu sentia mudou de uma hora para outra, quando, de repente, ela se soltou de mim e saiu correndo. Fiquei parado na areia, mas, me liguei que ela estava indo embora e corri atrás dela. Ela era rápida, isso eu não podia negar.
Enfim, Manoela se escondeu, porque eu realmente não a achei.
Decidi me sentar no banco que havia no calçadão da praia, para ver o transtorno que essa garota agora trouxe para minha vida em apenas alguns minutos. The Cure e ‘’Just Like Heaven’’ vieram na minha mente nesse momento. Essa garota é do vento, só pode. Deve ir e vir quando quer, desaparecer dever ser seu dom. Deus a castiga por ser assim.
Foi quando eu ouvi meu nome.
- Gabriel. Aqui. – e me virei para ver da onde vinha o som. Manoela estava escondida atrás do posto salva vidas, em um lugar muito bem iluminado.
- Ótimo lugar para se esconder. Se fosse no RPG, eu já tinha te achado. – disse irônico.
- Ironias são o meu forte, nem tente, ok? – ela disse séria.
- Você sempre faz isso? Beija as pessoas e foge depois? – eu disse um tanto acusatório.
- Não. Somente quando necessário. E quando eu quero. Não peço para entrar na vida das pessoas, elas vem porque elas querem encrenca, vodca e lágrimas. – ela disse seca.
- Faça isso quantas vezes quiser, até achar que as pessoas vão te deixar sozinha para sempre. – eu disse. Eu estava sendo mal. Isso era um fato novo.
- Não sou sozinha. Eu tenho uma namorada, mãe e amigos. Você nem me conhece direito para dizer isso de mim. – ela disse, se levantando e chegando mais perto de mim. Ela estava brava, dava para ver isso em seus olhos vermelhos.
- Tudo bem, é você que diz isso. – eu disse. Evito brigas dizendo isso.
Ela sorriu.
- Foi péssimo o que eu acabei de fazer. Te beijar foi um pequeno erro, eu não podia ... – e colocou a mão no rosto, em desacordo – Eu não sou uma garota com a qual você está acostumado. – ela disse suspirando e me olhando. Seu rosto estava vermelho, de tanto que ela esfregou.
- Tudo bem. Mas, uma coisa. Se você está aqui, é porque tinha que estar. Há algum propósito nisso. – eu disse, parecendo um padre velho, dando conselhos para a jovem desviada do caminho de Deus.
Ela me olhou, um tanto desdenhosa, e ficou em silêncio. Decidi falar então:
- Não importa. Nada importa. É natal, não é? – disse divertido.
- Isso importa. É natal. - ela me olhou e apontou para o céu.
Os fogos de artifício começaram a pipocar no céu, anunciando a meia noite. Manoela pegou em minha mão e disse:
- Feliz natal. – ela disse.
- Feliz natal. – eu disse.
Nos olhamos por longos segundos e depois, ela disse:
- Vamos para casa. Acho que precisamos olhar para as luzes no céu e ver o sentido que isso tem. - ela disse, sorrindo.
- Também acho.
Enganchei meu braço no dela e começamos a caminhar. Nos dois sentidos.

Continua.

Meia Volta, Volver!


Era noite. Muito bonita, por sinal.

Em 17 anos de vida eu nunca tinha visto uma noite daquela forma. No céu, as estrelas pareciam que queriam formar um caminho, mais que desenhos e constelações. A lua, imponente e, de certo modo, doce, imperava quase no meio do céu, mostrando que, dali a alguns minutos, seria meia noite.
 Estava com a camiseta do Metallica, de short e camisa xadrez, cozinhando com  ela, mas, fazer o quê? Eu era magro como um palito, precisava pelo menos fingir que tinha algum tipo de volume nos braços. As meninas não gostam de magrelos que tem cara, cabelo, barba e jeito de alienígena.
Eu estava sozinho, como era de costume. Meus pais tiveram a brilhante idéia de passar o fim de ano na praia, coisa que eu abominava. Praia nunca combinou comigo, sempre fui um garoto urbano, que vivia às 24 horas do dia sozinho. Quer dizer, havia as 4 horas que eu ficava na escola, e tinha sempre um mais estanho que eu que conversava comigo. E esse estranho era o meu único amigo, o Pedro, que estava tentando salvar meu fim de ano, já que veio comigo. Mas, ele, nessa noite, preferiu ir a um bar e beber, coisa que eu fazia também, mas isolado.
Era quase meia noite e eu continuava andando pela orla da praia, refletindo sobre essa coisa de espírito de natal, que todo mundo diz, mas, na prática, ninguém segue. O problema não era esse, mas, o problema realmente estava no sermão que ouviria da minha mãe, porque prometi que estaria em casa antes da meia noite, para a ceia de natal. Estar fora de casa em noite natalina era rotina para mim, ela deveria estar acostumada a isso.
Decidi voltar para casa, não estava mesmo muito a fim de ficar ali, andando e olhando o mar, o céu e as estrelas, mesmo que aquilo me agradasse muito.
Andando, suando e ouvindo ‘’Nothing Else Matters’’, me deparei com uma cena, um tanto estranha para mim.
Tinha uma garota, deitada na areia da praia, com um celular na orelha, e em mãos, coca cola, mashmallows, vodca e chocolate. Eu tive que rir com aquilo, era contraditório demais ver aquela cena. Mas, algo não se encaixava ali. Fui chegando mais perto dela, para ouvir a conversa que ela estava tendo ao celular. E, então, olhando pra cima, ela começou a falar:
- Não tudo bem, eu entendo. Sabe, eu estou aqui, jogada na praia, com vodca e mashmallows, chorando que nem uma idiota e ouvindo ‘’The Scientist’’, lembrando de tanta coisa! Natal me deixa nostálgica, você sabe muito bem disso.
Ela deu uma gostosa gargalhada. Depois, ficou séria e continuou:
- Eu estava pensando em tudo o que eu fiz para que a ficássemos juntas, para que as nossas famílias respeitassem nossa opção e tal...
Acho que ela estava esperando a outra pessoa falar. Ela ficou séria depois de um tempo. E recomeçou a falar:
- Eu, de alguma forma entendo isso. Não estamos preparadas, eu acho. O problema mesmo é que eu amo você. E não é pouco. Mas, eu não sou má, de nenhuma forma. Quando estivermos de volta a Curitiba, veremos isso.  
Ela fez uma pausa e chutou algo que estava na sua frente.
- Sim. Tudo bem. Eu amo você. Feliz Natal.
Ela sorriu diante da resposta ao celular.
- Você não existe, Esther. E eu também. – e riu -. Tchau, linda.
E então ela desligou. E chorou copiosamente.
Como se tivesse uma coisa dentro de mim, fui lá conversar com a garota. Caminhei silenciosamente, e dei dois ou três passos mais longos, antes de sentar, para não assustar a garota. Sentei-me na areia e falei:
- Você tá bem? Precisa de ajuda? – eu perguntei temeroso.
Ela abriu os olhos e se sentou a meu lado, mas um pouco afastada de mim. Enxugando as lágrimas com as costas das mãos, ela abriu um sorriso tímido, mas um tanto temeroso. Chego do nada perto da garota e já vou puxando assunto? Isso é coisa de bêbado e doido, isso sim.
- Hum, acho que não, né? Eu bebi muito, e liguei para a minha namorada. Quer dizer, ex-namorada. - ela disse com uma expressão triste.
Fiquei sem ação. A garota era lésbica então?
- Ah, você tem – tinha, quer dizer – uma namorada? – disse espantado.
Ela riu.
- Sim. E antes que você me pergunte, eu não sou lésbica, sou bi. Ela foi minha primeira namorada, antes, eu não gostava disso. - ela se explicou.
- Mas, não é estranho isso? Ter uma namorada deve ter dado um trabalho! – e ri.
- No começo, foi. Mas, depois, foi sossegado. Me separar dela, ninguém foi capaz de fazer, então, a gente ia, feliz. Mas agora, vai ser difícil. Tem um garoto na parada. E eu sou só uma garota. Quem sou eu frente a um garoto? – e uma lágrima desceu de seu olho esquerdo.
Meu coração doeu. Aquela menina era tão corajosa, e, iria ser descartada por um garoto?
- Não fique assim. Tudo tem solução, moça. Eu sei muito bem disso. – e sorri para ela.
Ela sorriu também.
- É Manoela.
Fiquei confuso.
- Manoela é o nome da sua ex?
- Não. Meu nome é Manoela. É para você não me chamar de moça. – e deu risada.
- O meu é Gabriel. É pra você não me chamar de você.
Ela riu novamente.
- Obrigado. Você é muito gentil de estar conversando comigo. – e suspirou, profundamente - Posso fazer uma coisa? – ela perguntou.
- Pode sim. – eu disse solícito.
E ela me beliscou. Gargalhei tamanho foi meu susto.
- Por que você fez isso? – olhando para ela, sorrindo.
- Eu queria ver se você era real, ou somente fruto da minha alucinação de bêbada. – ela disse, e se jogou na areia da praia.
Abaixei a cabeça, sorri e continuei a falar com ela.
- Você bebeu a garrafa inteira? – perguntei
- Sim. Quase de um gole só. – e deu risada. Sim, pessoas que bebem perdem a noção. E a razão. Conversar com estranhos não está no meu código de conduta.
- E quantos mashmallows você comeu? – continuei
- Uns três pacotes.
- É, você não pode estar bêbada. Com a quantidade de glicose andando em seu sangue, é impossível isso. – disse, ajeitando minha camisa.
Ela ficou em silencio, mas começou a dar risada depois.
- Então você é nerd? – ela disse, sentando-se e olhando fixamente para mim.
- Não, é que eu me dedico muito aos estudos. Eu não tenho muitos amigos, nem vida social. Assim, sobra muito tempo ocioso. – eu disse tentando me explicar.
- Somos dois. Eu também tenho status de nerd, não tenho muitos amigos e nem vida social. Mas, ultimamente, na época áurea de meu namoro, eu não ficava um final de semana sequer em casa. – e fitou o vazio do mar.
- Você faz o quê, no seu tempo livre? – perguntei. Parecia que eu queria flertar com ela. Parecia.
- Eu escrevo. Posso dizer que sou quase uma profissional. Ganhei um concurso de poesia na escola. Sou poeta. – ela disse, com ar triunfante.
Balancei a cabeça e sorri disfarçadamente. Vi o brilho dos olhos dela quando um farol de carro passou e nos iluminou rapidamente.
Ela era linda. Infelizmente, só consegui ver o amendoado de seus olhos e grandes olheiras abaixo deles.
- Por que você balançou a cabeça? Disse algo de errado? – ela perguntou, preocupada.
- Não. É que eu sou poeta também, de alguma forma. Escrevo músicas.
- Sério? – ela perguntou assustada.
- Faz tempo já, mas poucas pessoas as leram, ou me ouviram tocar e cantar. – disse tímido.
- Canta para mim, então? Qualquer música sua, eu quero ouvir. – ela pediu doce.
- Não, não. Você não vai gostar. Eu sou ruim. – eu disse, tentando achar uma desculpa.
- Não. Eu quero ouvir. – ela disse e pegou minha mão. - Por favor? É uma bêbada rejeitada que te pede isso.
Fiquei em silêncio. Além da minha irmã, dos meus pais e da minha professora de música, ninguém mais me ouviu cantar. Talvez não fosse má idéia.
- Tá. Mas, se eu for ruim, não jogue tomates, tudo bem? – e sorri
- Tudo bem. 
Respirei fundo, e vi que ela havia se encostado em meu ombro. Sorri e comecei a cantar um trecho da minha primeira música, Um ser só:
‘’ e no espelho vejo meu rosto cansado/ruim seria não ter amado/ nada agora é parado/ e vejo que você é tudo com que eu havia sonhado’’
Ela ficou em silêncio. Parecia estar absorvendo aquilo que eu havia cantado.
Finalmente, ela falou.
- Isso foi lindo. Você a amava, não é? – ela disse, em um sussurro.
Minha vez de ficar em silêncio.
Mas, respondi.
- Idealizei demais. Eu achava que só o amor iria ser suficiente. Mas, me enganei.
- Faz quanto tempo isso? – ela perguntou.
- Dois anos. Ela foi embora, foi morar na Bahia. Nunca mais ouvi falar dela. – eu disse, me lembrando de tudo o que aconteceu entre eu e Julia.
- Temos vidas parecidas. Minha ex vai morar na Bahia. Talvez eu também nunca mais a veja. E isso me mata, me mutila. – e se jogou mais uma vez na areia.
Fiz o mesmo dessa vez.
- E porque você está aqui, sozinha, em uma noite de natal? – perguntei
- Eu nunca fiz isso, sabe? Minha mãe vai ficar muito louca comigo. Sua bela Manoela estava bêbada jogada na areia. Tem coisa que ela possa se orgulhar? – ela perguntou amarga.
- Não. Mas, você deve ser o orgulho da família. Você é poeta, é inteligente, é bonita. Seu pai dever muitos ciúmes de você.
- Huum. Eu não me preocupo com isso. Não sei quem é meu pai. Tenho uma mãe equivalente a esses papeis, e digo, ela até que incentiva, de certa forma, mas não esse tipo de romance, não é?  – ela disse sarcástica.
- Oh! Me desculpe, eu não sabia. Fui indelicado. – disse, me sentindo mal.
- Não, tudo bem. Eu sei lidar com isso.
Olhei a hora. Estava tarde. Estava atrasado. Tinha que ir.
- Manoela, tenho que ir. – disse, me levantando.
- Ah, fica mais um pouco. O papo tava bom. – ela disse, e pegou meu braço.
- Não posso. Se ficar muito tempo fora, minha mãe me deixa pra fora.
Ela ficou em silêncio.
- Então tá. Eu vou com você. Assim, aprendo o caminho da sua casa. Me dê sua mão, tô presa aqui. – ela disse, dando risada.
Dei minha mão pra ela, mas calculei errado a força para puxá-la e Manoela caiu em cima de mim. Ficamos ali, um olhando para o outro por um bom tempo. Foi quando eu falei:
- A gente deveria levantar, não é? – disse, esboçando meu estranho sorriso amarelo.
Ela só balançou a cabeça, se levantou e postou-se a andar a meu lado. Andamos em silêncio, até que ela fala:
- Quer o último gole de vodca? – ela perguntou inocentemente, enquanto olhava para a areia.
- Não, eu quero mesmo é te fazer uma pergunta: se eu te beijasse agora, você me daria um tapa depois? – disse sarcástico.
Ela hesitou para responder. Mas, parou de andar e respondeu, com um sorriso no rosto:
- Não. Eu adoraria te beijar agora. – ela disse, e já colou sua boca na minha.

 Continua.

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