Archive for 01/09/2012

Baby, eu queria.


          Ele havia partido havia algum tempo. Comecei a parar de contar quando vi um foto dele no facebook com outra garota. Bem, era o direito dele, como era o meu também em pegar uma garrafa de vinho e esvazia-la.

          Tranquilidade era uma palavra que dominava minha vida nesse meio tempo. Era estranho não tê-lo em minha cama nessa primavera, que estava fria demais para as expectativas meteorológicas, desconfortável dividir o banco do ônibus de volta ao apartamento no subúrbio que dividimos por um tempo. Nunca imaginei que sentiria falta dele dessa forma.

          Se ele sentia a minha? Era uma questão com múltiplas alternativas e várias delas que me levariam a decadentes lágrimas. Ele me ligava, dizia que estava tudo ótimo em sua nova cidade, com seus novos amigos e várias oportunidades de encontrar uma pessoa diferente. Walk after you fazia tanto sentido que meu media player já havia classificado essa música com 5 estrelas. Nunca havia gostado de Foo Fighters antes dele, muito menos de Alter Bridge. Sentimentalismos a parte, depois que ele se foi, tive muito mais tempo de conseguir a minha tão sonhada graduação na Espanha. Se eu chegasse à Espanha, um mundo novo se abriria e essa falta que sentia do Lucas iria embora e o que ficariam seriam lembranças boas e só isso. O pensamento era tão idiota que me reconfortava.

          Desde pequena, nunca tive tudo o que desejava, então quando a maturidade veio, o que mais queria era poder reverter essa situação. Fiz sacrifícios, deixei pessoas para traz, tantas que quando certa quantia chegou, parei de contar. Mas, se eu ganhasse a bolsa de estudos em Toledo, poderia ter todos os amigos que tive que deixar, todos os amores e refazer todos os poemas. O lirismo iria voltar, os sonhos, até os sorrisos. Era uma calma e uma certeza que não sabia de onde vinha.

          Eu era uma boa atriz e uma rainha do drama nata. Era meu charme, algo que fazia meu melhor amigo rir. Mas Miguel sabia onde estava a ferida e tocava nela com força.  Um de seus argumentos era que Lucas era o único que iria aguentar minhas crises literárias e meus Beatles as quatro da manha, além dele mesmo, claro.

          Eu vivia nesses devaneios, principalmente quando estava sozinha. Era uma forma de deixar a vida mais suave, semelhante a esses livros adolescentes.
Foi nesse momento, sentada na cadeira de balanço e olhando da janela do quarto andar, ouvi batidas na porta. Abri e vi que era Miguel com duas cartas na mão e um sorriso gigante no rosto.

          - Acho que sou portador de grandes notícias. – ele disse, me abraçando.

          - Trouxe vinho? – respondi, rindo.

         Ele me olhou de cara feia e depois passou os olhos na mesa, onde havia quatro garrafas vazias de vinho.

          - Bebeu tudo isso sozinha?

          Balancei a cabeça em sinal positivo e senti o mundo rodar ao meu redor. Era ressaca?

          Ri internamente e me sentei na cadeira, antes que chão se atraísse, como mágica, ao meu corpo.

          - Quais são as boas notícias? Saiu ontem de noite e finalmente arranjou uma namorada e assim irá trocar sua fiel escudeira aqui por um lugar onde irá enfiar s-

          - Por favor, sarcasmo saindo da sua boa é ridículo, Catarina. – ele me interrompeu. – Sentir falta é normal, sabe? Já te disse que eu não te vi chorar desde que o Lucas foi embora? Você faz isso sozinha, enrolada naquele moletom fedido que ele esqueceu aqui? – ele disse depreciativo.

          - Ignorei o que você falou quando disse “ridículo”. – falei, enrolando-me em meu robe, indo em direção à janela.

          - Ok, ok, vamos aos negócios então. Tenho nossas cartas sagradas aqui. Chegaram mais cedo na universidade. – ele disse, vindo em minha direção.

          - Achava que elas seriam encaminhadas para cá. – meu coração batendo uma oitava mais alta e duas vezes mais forte.

          - Vamos abrir logo? – ele disse com um sorriso no rosto, me estendendo minha carta.

          Eu sabia que tudo iria mudar se o conteúdo daquela carta fosse positivo. A saudade, a tranquilidade, até esse desejo repentino de beber várias garrafas de vinho. Lucas se tornaria um capítulo da minha vida. Eu iria começar tudo de volta, com uma felicidade enorme.

          Abri com cuidado e li cada letra meticulosamente.

          - Fui aprovada. – falei em um fio de voz.

          Miguel olhou para mim e me abraçou tão forte que imaginei que fosse perder o ar, por alguns minutos. Eu estava em choque. Meu sonho finalmente tinha se tornado realidade. Meus esforços não foram a toa. Eram tantos pensamentos enquanto que rodeavam minha mente e quando senti os braços de Miguel me deixando, encontrei o chão. Ele ficou assustado e se sentou no chão comigo, rindo com uma expressão preocupada. Ele deve estar pensando que eu iria ter uma crise ao algo do gênero.

          - E você? Eu estou bem, abra a sua logo, por favor. – eu disse com a voz exaltada.
Ele abriu, leu rapidamente e, com os olhos iluminados, levantou seu olhar da carta e disse:

          - Eu também.

          Gritamos, rolamos o chão, gritamos mais um pouco e pulamos muito. Eu e Miguel, em Toledo. Era tudo o que eu havia sonhado.

          Com os ânimos acalmados, atualizei meu status no facebook com a seguinte frase: “Alô chicos, Toledo espera de braços abertos eu e Miguel como futuros estudantes! Muito obrigado por todos que nos ajudaram para que esse sonho se realizasse!”.
Várias pessoas comentaram e nos parabenizaram, alegres com nossa vitória. Era tão inacreditável que meus nervos ainda estavam sensíveis. Foi quando um comentário em especial me chamou atenção.

          “Lucas Santiago: Espero que isso seja o que você tanto procurou, Catarina e que isso vá valer a pena realmente. Você sacrificou muita coisa para ter essa bolsa, então boa sorte. Que sua nova e brilhante vida seja como você sonhou.”
Bom, era o que eu queria mais do que qualquer coisa no mundo. Talvez eu estivesse errada, mas só tenho uma vida, uma chance e não iria desperdiçá-la, mesmo que para vivê-la tenha que deixar o maior sonho que já tive para trás. 

Um lugar que costumávamos conhecer.



          Ele beijou minha testa, suavemente, como se não fosse a última vez. Sem querer, deixei meu livro cair no chão diretamente na poça de água que a chuva estava formando. 
          - Droga, era meu livro favorito! - exclamei.
          - Não ligue, ele já estava cansado de tantas vezes que você o leu. - ele me disse, com a voz embargada. 
          Droga.
          - Não vá. - eu disse, abraçando-o.
          - Não vá você. - ele respondeu, sorrindo. 
        - Eu queria ir, mas e os meus sonhos? Como ficam? - respondi, sentindo uma lágrima descendo, devagar como uma faca deslizando em meu pescoço.
          - Nós tínhamos planos, sonhos juntos. Nossa casa perto de uma montanha, com o rio passando... Filhos. - ele respondeu, pegando minha mão.
         - Eu quero ser grande, ser melhor que isso, quero ser alguém com que você se orgulhe. Não nasci para ser alguém que fica na sombra. Quero viajar, conhecer pessoas, escrever um best seller, ficar marcada. 
          - Você já brilha demais, Catarina. - ele disse triste. 
          - Não o suficiente. - retruquei irritada. 
         - Foram 3 anos muito bons, sabe? Suas poesias, logo de manha eram muito revigorantes  - se bem que eu gostava mais dos seus escritos eróticos. - ele disse rindo. 
          - Eu sempre me inspirava nas nossas noites, no nosso amor. - abracei-o, deixando o guarda chuva cair. Não importava mais, de qualquer forma. 
      - Eu te amei desde aquela noite, sabia? Quando você disse que estava na universidade, mostrando ser tão superior a mim, tão melhor. Mas, por incrível que pareça, você disse que fazia um tempo que tinha escrito um conto e o personagem principal tinha se personificado em mim. Você, com sua imagem alto depreciativa, com o coração partido, gostou de mim. E foi assim que tudo começou. 
       - Por favor, você não está escrevendo uma postagem no facebook, certo? - falei rindo.
          - Não, isso é clichê demais. Todo mundo sabe que eu te amo. 
          - Todo mundo sabe que eu gosto de Charlotte Brontë. 
          - Você não tá fazendo isso se tornar fácil para ambos. 
          Empurrei-o para olhar em seus olhos.
      - Olha, você me curou de tudo ruim que havia na minha vida e por isso serei eternamente grata. Eu te amo e vou amar para sempre, independente dos nossos sonhos.  Seus grossos e densos cabelos enrolados, sua voz suave e o jeito que você me toca nunca deixará de ser a melhor coisa que já tive na minha vida. E não venha com esse discurso de que estou deixando você pelos meus sonhos e que não estou facilitando. Para estar com você eu precisaria estar completa e não estou, porque meus sonhos são coisas que não posso desistir, mesmo que tenha que deixar você ir. Queria que você ficasse e então eu me casaria com você, seria feliz com minha vida normal, mas esse conceito nunca fez sentido na minha vida. - as lágrimas que estavam esperando cair vieram violentamente. - Eu te amo para sempre, Lucas. Eu só não posso desistir do que eu quero. 
          Ele me olhou profundamente, formulando uma frase coerente, mas única coisa que saiu foi:
          - Eu nunca fui seu sonho?
          - Você sempre será o maior deles. - respondi entre soluços. As pessoas passavam e nos olhavam, como se fossem loucos. 
          Ele sorriu. 
          - Acho que isso é o suficiente.   
   - Vai logo, antes que eu mude de ideia. Isso aqui não é um filme. - disse, empurrando-o. Os soluços aumentaram. 
          - Eu não quero ir. - ele disse. 
          - Você deve ir. 
          - Você tá certa. 
          - Eu te amo, certo? Nunca duvide disso.  
    - Eu te amo também. Nunca se esqueça disso. - ele disse me abraçando, depois tomando meu rosto em suas mãos e me beijando ferozmente. 
          Mais calmos, os beijos se tornaram tranquilos, para se tornarem tristes. 
          - Adeus. - ele disse, segurando minha mão. 
          Apertei-as tão forte que pensei que quebrariam seus dedos. 
         - Adeus. - falei, controlando minhas lágrimas, ainda segurando sua mão.
      - Você tem que me soltar, Catarina. - ele falou, beijando meus dedos. Não respondi, só meneei com a cabeça. Aquilo era pior do que eu via nos filmes americanos de fim de tarde. 
         Ele foi se afastando, lentamente, segurando minha mão, até que era impossível segurar por mais tempo. 
         Era o momento do adeus. 
       Soltei seus dedos, um por um, até olhar em seus olhos mais uma vez. Era o amor de toda uma vida que estava indo embora, desistindo de mim porque meus sonhos eram grandes demais. Mas o maior deles eu estava deixando ir.           
      Finalmente deixei sua mão cair no ar chuvoso. Chorei incontrolavelmente durante alguns minutos, até que me senti cansada pelo esforço. Lembrei-me do livro caído e recolhi-o, onde, por ironia, estava em uma página que me fez sorrir, apesar de tudo. O trecho em questão era do Poema An almost made up poem, de Charles Bukowski.
"se eu te tivesse conhecido teria provavelmente sido injusto contigo e tu comigo. foi melhor assim..."
          Foi melhor assim. Um dia, quem sabe, eu não esteja te vendo ir embora, debaixo de uma chuva, levando uma parte de mim que nunca imaginei que pudesse pertencer a alguém. 

reflexões de uma noite de setembro


da noite fria 
de braços gordos e vazios
eu via 
que aqueles seios que mergulhava
como nos rios
que me banhava
não tinham mais efeito

minha mente carecia de informações e data
para formular uma teoria
mesmo que mortal como faca
para entender porque meu coração não sorria

e teu corpo que me excitava
agora era nada
talvez, fossem outros braços 
que eu, agora clamava
- talvez a primavera passada
tenha acabado com o encanto

e num novembro, sozinha fiquei em uma cama gelada
nua, desfeita
perdi a calma,
a inocência, assim tu se viu satisfeita

enganou-me com discursos de amor

enlouqueceu o quanto pode
fez do frio, calor
trocou meus versos por lixo
mas hoje, nessa noite gelada
vejo que tua falácia 
era a brisa do inverno que acabou

e de outubro, novembro, dezembro
agora nada mais lembro

e espero que não se importe
porque esses versos pobres 
são só memórias de um novembro fracassado
um sorriso amargo
e seus olhos negros borrados


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