O pincel azul


          Era uma vez um pintor. Sua janela em estilo vitoriano e seu bigode remetiam a seus ídolos antigos - Van Gogh, Da Vinci. Pintores que, ao contrário dele, possuíam talento. Isso era algo que não tinha em seus dedos e era algo que realmente o frustrava. Mas ele ia levando, criando suas naturezas mortas, suas moças com brincos nas orelhas acreditando que aquilo era bom - mas havia aquele homem, aquele que o amedrontava e dizia que ele não possuía o potencial para que suas obras fossem exibidas em sua galeria. "Questões financeiras, meu caro”.
          Viver nesse mundo capitalista não era exatamente um bom negócio para ele. Isso requer que as pessoas não possuam corações. Mas ele tinha. Ele tinha um coração todo dedicado às artes, olhos esperançosos que viam a tela branca como alguém vê o grande amor da sua vida. Era um grande espetáculo vê-lo pintar. Seus olhos brilhavam - suas roupas também, com os respingos de tinta que contrastavam com o branco de seu avental. 
          Ele olhava para seu avental no final de todo o dia e ria. Toda aquela bagunça colorida em uma superfície um tanto plana, um tanto seca, um tanto normal. Parecia sua vida. Como a pintura colocava tudo no lugar correto, como isso realmente coloria sua existência. Seu atelier era seu mundo. E ele não iria desistir de encontrar seu lugar naquele mundo que ele mesmo criou.
          Certo dia, ele precisava comprar um pincel novo, pois seu gato - sempre ele - havia desaparecido com o seu pela milésima vez. Assim, tirou seu avental, trocou de roupa e foi até o centro da cidade, mas o que ele não esperava era que, em seu caminho, haveria uma feira de antiguidades e ele sendo um grande fã de coisas velhas, decidiu dar uma olhada pelas barracas espalhadas na praça.
          Seus olhos escondidos em seus óculos que corrigiam sua miopia escondiam grande entusiasmo em estar ali. Haviam senhores com enormes coleções de moedas, de selos, de fios de cabelos. Tudo era muito novo para ele, mesmo todas aquelas coisas carregarem mais histórias do que ele mesmo possuía. Curioso, ele tocava em tudo - virava moedas, experimentava óculos de sol, enrolava echarpes em seu pescoço, não ligando muito por onde elas estiveram andando. Mas ele chegou a uma tenda que lhe chamou a atenção. Cuidando dela, havia um jovem, por volta de seus 16 anos, usando roupas estranhas para esse momento do século. Nessa tenda, haviam molduras, tripés e claramente, pincéis. Os preços o atraíram, pois eram especialmente feitos para um pintor que vivia de suas aulas para crianças. Então, ele passou o dedo por vários pincéis, até que uma garotinha, por volta de seus 10 anos, se aproximou e docemente disse: "você deve levar esse, moço. Ele parece muito bonito", a garota disse, apontando para um pincel de cabo de madeira, bastante envelhecido, que tinha uma tonalidade azul que provavelmente foi sua cor um dia. O cabo possuía linhas e pequeninas letras, que ele não conseguia ler.
          Era apenas um pincel. Um muito bonito, aliás. Suas cerdas pareciam novas, apesar do estado seu cabo. Ele era barato e bonito. E ele não precisaria andar mais nesse calor de dezembro para comprar um novo. Ele pagou o jovem que, embrulhando o pincel, o estudava curiosamente, em silêncio. Depois, entregou o envelope e disse, simplesmente: "se divirta". O pintor, intrigado, apenas sorriu e fez seu caminho de volta. Chegou em sua casa, se posicionou na frente da tela e começou a pintar a cena que tinha acabado de presenciar: crianças brincando com um cachorro no quintal da casa ao lado. Pintou-a durante todo o dia e boa parte da noite. Se sentindo exausto, fez seu caminho até a cama, que ficava ao lado de seu atelier. Mas logo depois de colocar sua cabeça no travesseiro, ele ouviu latidos muito próximos. Olhando da janela de seu quarto, ele não vislumbrava nenhum cachorro latindo, mas o som continuava. Parecia estar dentro de sua casa. Intrigado, foi checar pelos cômodos aonde é que esse barulho poderia ter vindo. O último cômodo visitado foi seu atelier. E a surpresa foi grande ao descobrir que era daquele lugar que vinha aquele som.
         Olhando para sua tela, posicionada no meio de seu atelier, seus olhos, primeiramente assustados, saltaram quando viram que a cena que ele havia visto e pintado há algumas horas atrás estava viva. As duas meninas brincavam na tela, com seus respectivos cachorros, que latiam enquanto elas riam e se sujavam, exatamente da forma que a cena havia sido exposta a ele. Talvez fosse isso. Então ele fez um autorretrato - um homem em seus 30 e poucos anos, de cabelos negros enrolados, em uma massa escura e bagunçada, com olhos que possuíam várias tonalidades, escondidos por um grande óculos. Quando ele terminou, aquela pintura em especial não tomou vida - apenas olhava para ele e sorria. Nada a mais que isso. Isso o intrigou. "Porque todas as outras possuem vida e essa em especial não possui nada? "Então, no meio do silêncio em seu atelier, ouviu sua resposta: "você só precisa se encontrar", o pintor feito de tinta respondeu. 
          Então ele tinha vida! Isso o motivou a pintar ainda mais. Paisagens, lugares que ele gostaria de conhecer, seus vizinhos, seus alunos, a atendente sorrindo para ele toda a manhã na padaria. Cenas corriqueiras, cenas grandiosas, cenas normais ganhavam nova nuance em seus dedos agora confiantes. Então ele se atreveu a levar um de seus quadros até o homem arrogante da galeria de arte, que novamente não gostou da ideia. Ele voltou para a casa triste. Não gostava da ideia de ser novamente humilhado. Então, pintou novamente. Pintou até que suas mãos ficassem doloridas e ele assim escolheu dormir.
Um dia, depois de suas aulas, o pintor esqueceu seu atelier aberto. Uma das crianças, curiosa, abriu a porta e vislumbrou todo aquele universo colorido e vivo. Olhava e tocava em tudo, sentindo com todo seu coração aquilo expresso nas telas. Sua vida não era fácil. Aquelas aulas duramente pagas pelos seus pais eram sua única fonte de alegria no dia - dela e de provavelmente todas as crianças que ali estavam.Aquilo lhe deu força e mudou sua forma de pensar a pintura. Suas aulas com o pintor se tornaram mais frequentes e seu talento aumentava. As outras crianças também tiveram súbitas mudanças da mesma forma - o segredo dos quadros vivos do professor não era tão secreto assim. E de repente, seus rabiscos também começaram a tomar vida. E o pintor viu ali, no sorriso da descoberta das crianças que aquele pincel tinha o poder de dar esperança, e que isso nenhuma galeria no mundo poderia oferecer.
          O pintor, depois à noite, sentou-se no chão e admirava aquilo. "Eu tenho algum talento, talvez. E um pincel mágico. E agora, tenho crianças que possuem esperança. O que eu posso fazer com isso?", ele se perguntou. E ele não sabia a resposta, mas colocou seu avental e voltou a seu trabalho. Pintou diversas telas e se divertia com o resultado. Sua sala se encheu de vida - risadas de crianças, barulhos de águas rolando por pedras, passarinhos cantando e até motoristas buzinando. Ele gostava do resultado completo - de todas as nuances da vida. E durante aquela noite, ele sentiu que seus dedos tinham algum talento, e que aquilo não requeria um pincel mágico para ser dito, no fim das contas.