Era noite. Muito bonita, por sinal.
Em 17 anos de vida eu nunca tinha visto uma noite daquela forma. No céu, as estrelas pareciam que queriam formar um caminho, mais que desenhos e constelações. A lua, imponente e, de certo modo, doce, imperava quase no meio do céu, mostrando que, dali a alguns minutos, seria meia noite.
Estava com a camiseta do Metallica, de short e camisa xadrez, cozinhando com ela, mas, fazer o quê? Eu era magro como um palito, precisava pelo menos fingir que tinha algum tipo de volume nos braços. As meninas não gostam de magrelos que tem cara, cabelo, barba e jeito de alienígena.
Eu estava sozinho, como era de costume. Meus pais tiveram a brilhante idéia de passar o fim de ano na praia, coisa que eu abominava. Praia nunca combinou comigo, sempre fui um garoto urbano, que vivia às 24 horas do dia sozinho. Quer dizer, havia as 4 horas que eu ficava na escola, e tinha sempre um mais estanho que eu que conversava comigo. E esse estranho era o meu único amigo, o Pedro, que estava tentando salvar meu fim de ano, já que veio comigo. Mas, ele, nessa noite, preferiu ir a um bar e beber, coisa que eu fazia também, mas isolado.
Era quase meia noite e eu continuava andando pela orla da praia, refletindo sobre essa coisa de espírito de natal, que todo mundo diz, mas, na prática, ninguém segue. O problema não era esse, mas, o problema realmente estava no sermão que ouviria da minha mãe, porque prometi que estaria em casa antes da meia noite, para a ceia de natal. Estar fora de casa em noite natalina era rotina para mim, ela deveria estar acostumada a isso.
Decidi voltar para casa, não estava mesmo muito a fim de ficar ali, andando e olhando o mar, o céu e as estrelas, mesmo que aquilo me agradasse muito.
Andando, suando e ouvindo ‘’Nothing Else Matters’’, me deparei com uma cena, um tanto estranha para mim.
Tinha uma garota, deitada na areia da praia, com um celular na orelha, e em mãos, coca cola, mashmallows, vodca e chocolate. Eu tive que rir com aquilo, era contraditório demais ver aquela cena. Mas, algo não se encaixava ali. Fui chegando mais perto dela, para ouvir a conversa que ela estava tendo ao celular. E, então, olhando pra cima, ela começou a falar:
- Não tudo bem, eu entendo. Sabe, eu estou aqui, jogada na praia, com vodca e mashmallows, chorando que nem uma idiota e ouvindo ‘’The Scientist’’, lembrando de tanta coisa! Natal me deixa nostálgica, você sabe muito bem disso.
Ela deu uma gostosa gargalhada. Depois, ficou séria e continuou:
- Eu estava pensando em tudo o que eu fiz para que a ficássemos juntas, para que as nossas famílias respeitassem nossa opção e tal...
Acho que ela estava esperando a outra pessoa falar. Ela ficou séria depois de um tempo. E recomeçou a falar:
- Eu, de alguma forma entendo isso. Não estamos preparadas, eu acho. O problema mesmo é que eu amo você. E não é pouco. Mas, eu não sou má, de nenhuma forma. Quando estivermos de volta a Curitiba, veremos isso.
Ela fez uma pausa e chutou algo que estava na sua frente.
- Sim. Tudo bem. Eu amo você. Feliz Natal.
Ela sorriu diante da resposta ao celular.
- Você não existe, Esther. E eu também. – e riu -. Tchau, linda.
E então ela desligou. E chorou copiosamente.
Como se tivesse uma coisa dentro de mim, fui lá conversar com a garota. Caminhei silenciosamente, e dei dois ou três passos mais longos, antes de sentar, para não assustar a garota. Sentei-me na areia e falei:
- Você tá bem? Precisa de ajuda? – eu perguntei temeroso.
Ela abriu os olhos e se sentou a meu lado, mas um pouco afastada de mim. Enxugando as lágrimas com as costas das mãos, ela abriu um sorriso tímido, mas um tanto temeroso. Chego do nada perto da garota e já vou puxando assunto? Isso é coisa de bêbado e doido, isso sim.
- Hum, acho que não, né? Eu bebi muito, e liguei para a minha namorada. Quer dizer, ex-namorada. - ela disse com uma expressão triste.
Fiquei sem ação. A garota era lésbica então?
- Ah, você tem – tinha, quer dizer – uma namorada? – disse espantado.
Ela riu.
- Sim. E antes que você me pergunte, eu não sou lésbica, sou bi. Ela foi minha primeira namorada, antes, eu não gostava disso. - ela se explicou.
- Mas, não é estranho isso? Ter uma namorada deve ter dado um trabalho! – e ri.
- No começo, foi. Mas, depois, foi sossegado. Me separar dela, ninguém foi capaz de fazer, então, a gente ia, feliz. Mas agora, vai ser difícil. Tem um garoto na parada. E eu sou só uma garota. Quem sou eu frente a um garoto? – e uma lágrima desceu de seu olho esquerdo.
Meu coração doeu. Aquela menina era tão corajosa, e, iria ser descartada por um garoto?
- Não fique assim. Tudo tem solução, moça. Eu sei muito bem disso. – e sorri para ela.
Ela sorriu também.
- É Manoela.
Fiquei confuso.
- Manoela é o nome da sua ex?
- Não. Meu nome é Manoela. É para você não me chamar de moça. – e deu risada.
- O meu é Gabriel. É pra você não me chamar de você.
Ela riu novamente.
- Obrigado. Você é muito gentil de estar conversando comigo. – e suspirou, profundamente - Posso fazer uma coisa? – ela perguntou.
- Pode sim. – eu disse solícito.
E ela me beliscou. Gargalhei tamanho foi meu susto.
- Por que você fez isso? – olhando para ela, sorrindo.
- Eu queria ver se você era real, ou somente fruto da minha alucinação de bêbada. – ela disse, e se jogou na areia da praia.
Abaixei a cabeça, sorri e continuei a falar com ela.
- Você bebeu a garrafa inteira? – perguntei
- Sim. Quase de um gole só. – e deu risada. Sim, pessoas que bebem perdem a noção. E a razão. Conversar com estranhos não está no meu código de conduta.
- E quantos mashmallows você comeu? – continuei
- Uns três pacotes.
- É, você não pode estar bêbada. Com a quantidade de glicose andando em seu sangue, é impossível isso. – disse, ajeitando minha camisa.
Ela ficou em silencio, mas começou a dar risada depois.
- Então você é nerd? – ela disse, sentando-se e olhando fixamente para mim.
- Não, é que eu me dedico muito aos estudos. Eu não tenho muitos amigos, nem vida social. Assim, sobra muito tempo ocioso. – eu disse tentando me explicar.
- Somos dois. Eu também tenho status de nerd, não tenho muitos amigos e nem vida social. Mas, ultimamente, na época áurea de meu namoro, eu não ficava um final de semana sequer em casa. – e fitou o vazio do mar.
- Você faz o quê, no seu tempo livre? – perguntei. Parecia que eu queria flertar com ela. Parecia.
- Eu escrevo. Posso dizer que sou quase uma profissional. Ganhei um concurso de poesia na escola. Sou poeta. – ela disse, com ar triunfante.
Balancei a cabeça e sorri disfarçadamente. Vi o brilho dos olhos dela quando um farol de carro passou e nos iluminou rapidamente.
Ela era linda. Infelizmente, só consegui ver o amendoado de seus olhos e grandes olheiras abaixo deles.
- Por que você balançou a cabeça? Disse algo de errado? – ela perguntou, preocupada.
- Não. É que eu sou poeta também, de alguma forma. Escrevo músicas.
- Sério? – ela perguntou assustada.
- Faz tempo já, mas poucas pessoas as leram, ou me ouviram tocar e cantar. – disse tímido.
- Canta para mim, então? Qualquer música sua, eu quero ouvir. – ela pediu doce.
- Não, não. Você não vai gostar. Eu sou ruim. – eu disse, tentando achar uma desculpa.
- Não. Eu quero ouvir. – ela disse e pegou minha mão. - Por favor? É uma bêbada rejeitada que te pede isso.
Fiquei em silêncio. Além da minha irmã, dos meus pais e da minha professora de música, ninguém mais me ouviu cantar. Talvez não fosse má idéia.
- Tá. Mas, se eu for ruim, não jogue tomates, tudo bem? – e sorri
- Tudo bem.
Respirei fundo, e vi que ela havia se encostado em meu ombro. Sorri e comecei a cantar um trecho da minha primeira música, Um ser só:
‘’ e no espelho vejo meu rosto cansado/ruim seria não ter amado/ nada agora é parado/ e vejo que você é tudo com que eu havia sonhado’’
Ela ficou em silêncio. Parecia estar absorvendo aquilo que eu havia cantado.
Finalmente, ela falou.
- Isso foi lindo. Você a amava, não é? – ela disse, em um sussurro.
Minha vez de ficar em silêncio.
Mas, respondi.
- Idealizei demais. Eu achava que só o amor iria ser suficiente. Mas, me enganei.
- Faz quanto tempo isso? – ela perguntou.
- Dois anos. Ela foi embora, foi morar na Bahia. Nunca mais ouvi falar dela. – eu disse, me lembrando de tudo o que aconteceu entre eu e Julia.
- Temos vidas parecidas. Minha ex vai morar na Bahia. Talvez eu também nunca mais a veja. E isso me mata, me mutila. – e se jogou mais uma vez na areia.
Fiz o mesmo dessa vez.
- E porque você está aqui, sozinha, em uma noite de natal? – perguntei
- Eu nunca fiz isso, sabe? Minha mãe vai ficar muito louca comigo. Sua bela Manoela estava bêbada jogada na areia. Tem coisa que ela possa se orgulhar? – ela perguntou amarga.
- Não. Mas, você deve ser o orgulho da família. Você é poeta, é inteligente, é bonita. Seu pai dever muitos ciúmes de você.
- Huum. Eu não me preocupo com isso. Não sei quem é meu pai. Tenho uma mãe equivalente a esses papeis, e digo, ela até que incentiva, de certa forma, mas não esse tipo de romance, não é? – ela disse sarcástica.
- Oh! Me desculpe, eu não sabia. Fui indelicado. – disse, me sentindo mal.
- Não, tudo bem. Eu sei lidar com isso.
Olhei a hora. Estava tarde. Estava atrasado. Tinha que ir.
- Manoela, tenho que ir. – disse, me levantando.
- Ah, fica mais um pouco. O papo tava bom. – ela disse, e pegou meu braço.
- Não posso. Se ficar muito tempo fora, minha mãe me deixa pra fora.
Ela ficou em silêncio.
- Então tá. Eu vou com você. Assim, aprendo o caminho da sua casa. Me dê sua mão, tô presa aqui. – ela disse, dando risada.
Dei minha mão pra ela, mas calculei errado a força para puxá-la e Manoela caiu em cima de mim. Ficamos ali, um olhando para o outro por um bom tempo. Foi quando eu falei:
- A gente deveria levantar, não é? – disse, esboçando meu estranho sorriso amarelo.
Ela só balançou a cabeça, se levantou e postou-se a andar a meu lado. Andamos em silêncio, até que ela fala:
- Quer o último gole de vodca? – ela perguntou inocentemente, enquanto olhava para a areia.
- Não, eu quero mesmo é te fazer uma pergunta: se eu te beijasse agora, você me daria um tapa depois? – disse sarcástico.
Ela hesitou para responder. Mas, parou de andar e respondeu, com um sorriso no rosto:
- Não. Eu adoraria te beijar agora. – ela disse, e já colou sua boca na minha.
Continua.