Ela o via e imaginava como seria sua vida com ele. Era doce o sabor do desejo na boca, era empolgante ter o objeto de admiração em suas mãos cada vez mais.
Ela pensava nesse desejo proibido dentro de seu corpo adolescente. Os hormônios a enlouqueciam, a vontade de tomá-lo nos braços era torturante, as palavras belas tinham sufocado seu pensamento, oprimindo-a de tê-los coerentemente.
Se ela o amava?
Talvez.
Mas ela era muito jovem para poder saber se aquilo era realmente forte e se valia à pena.
A sutileza com que as coisas estavam acontecendo entre eles era admirável. O olhar, o jeito de falar, a maneira como cada um pensava no outro deliciava suas mentes, tornava aquele jogo da sedução incrivelmente excitante. Mas era perigoso para os dois, principalmente para ele, alguém que nunca poderia se envolver pela adolescente provocante e, ao mesmo tempo, inocente que transpirava.
Ele a amava?
Talvez.
Mas ele era diferente dela, era simplesmente impossível de se viver um amor com ela.
E a garota provocava. Ela passava a seu lado, deixando para trás um rastro de seu perfume delicado, deixando-o louco. Seu corpo, seu rosto, tudo que a compunha o seduzia, estonteava e confundia seus pensamentos. A garota não sabia o problema que estava arranjando, seduzindo-o.
Ele, quando estava com a outra, ficava perturbado, pensando na grande barreira que existia entre ele e a garota, vendo que estava enganando uma, pensando em uma outra. Não era justo, não era seu perfil.
Quando se encostavam, a corrente de atração que passava entre eles era perceptível e estranhamente boa. Nenhum dos dois sabia o que estava ocorrendo. A boca da garota queria provar do mel dos lábios dele, queria colar seu corpo ao dele, deliciar-se com aquilo que era novo em sua vida. Ele estava assustado, mas queria ter em mãos o corpo dela.
Foi num dia normal de outono, vazia, ensolarada e de ventos gelados que eles se esbarraram na saída do colégio. Olharam-se por longos segundos, procurando um nos olhos do outro algo que os fizesse entender de onde surgiu aquele turbilhão de emoções que estavam mergulhando naquele momento. O corpo, a mente e a alma deles quase imploravam um ao outro. Mesmo sem dizerem uma palavra, eles viram que todo o tempo em que se evitaram, que resguardaram aquele sentimento foi em vão.
Eles não se conteram. Começaram a se aproximar mais um do outro, suavemente e tranquilamente, enquanto o desejo aumentava. Quando estavam há poucos centímetros perto do outro, o sol refletiu em suas faces, os fazendo viram na direção dele e sorrir. Ela pensou que fosse um sinal divino, e se virou para contemplá-lo. Ele se virou também, sorriu e inclinou sua cabeça para frente, oferecendo os seus lábios para ela.
O primeiro toque das bocas foi como água em brasa. O mel dos lábios dela era envolvente, a maciez da boca dele era enlouquecedor. Depois disso, olharam-se, sorriram e se beijaram novamente, mas dessa vez a volúpia e a entrega foram maiores. Suas mãos viajavam pelos seus corpos, as bocas exploravam outros lugares, estavam tão unidos que quase eram um só.
Parecia que, naquele momento, o mundo tinha parado.
E foi assim. Tudo ocorreu como o planejado.
A musicista continuou com seus versos, mas agora tinha a inspiração a seu lado, as estrofes não eram mais atropeladas, os sentimentos não eram abafados, tudo corria bem.
O astrônomo, que contemplava as estrelas, mas encontrava os olhos da adolescente continuava com os pensamentos nela, sua vida acabou se tornando ela, o céu era um elemento figurado de sua entrega aquele amor.
Mas, estranhamente, o amor acabou da parte dela. Ela era jovem, queria viver a vida, nada mais justo que isso para quem começou a dar seus primeiros passos sozinhos agora. Ele, de princípio, entendeu, nada mais normal que isso. Mas, ela era a vida dele, de mais ninguém, e não seria de mais ninguém se ela não fosse dele para sempre.
O astrônomo começou a sua incessante busca para tê-la de volta. Recorria às estrelas, mas elas nada ajudavam. Tentava a lua, mas essa mudava de fase, era complicado entender o que ela dizia. Ela não queria a loucura do ser que tanto amou na vida, mas não ficaria a seu lado por um simples delírio momentâneo.
Ele a queria, custe o que custar, independente daquilo que posso causar no final. Sua mente trabalhava 24 horas por dia pensando em maneiras de ter o objeto amado de volta. Nada mais valia a pena. Tudo se resumia a isso, a ter sua bonequinha de porcelana, frágil e delicada, novamente na sua estante.
Tomado pela dor que sentia, ele começou a segui-la, a telefonar sempre, colocá-la a seu ver, para que ela não pudesse conhecer mais ninguém. A musicista se sentia acuada, a admiração acabou virando medo, via que até seus pensamentos estavam sendo monitorados. A vida não era mais tão boa assim.
A obsessão acabou com tudo que havia de agradável entre eles.
E foi assim que acabou a história com um deles.
Foi num dia lindo de verão que o astrônomo, com sua desesperada calma, foi até a musicista e lhe golpeou quatro vezes na barriga com uma faca. Ali, naquele momento, a pequena adolescente olhou no verde de seus olhos, vendo seu assassino, mártir e amor, e entendeu que, passasse o tempo que fosse, ela amaria para sempre. Dessa forma, vendo o amor e a culpa nos olhos de seu vilão e herói, que ela o perdoou por tudo o que ele lhe tinha feito, e prometeu que o amaria para sempre.
E se foi. Mas permanentemente.
Os pássaros piaram, as árvores balançaram, o vento soprou e a vida não parou.
O astrônomo não se livrou da culpa que o perseguia a cada passo que dava depois do ‘’ocorrido’’. Ela foi tão grande que ele nem quis se matar. Simplesmente, se entregou a polícia, onde foi preso e julgado a prisão perpétua.
Se aquilo o acalentava?
Não.
Mas servia como calvário, tortura, purgatório e remissão dos pecados, antes que as estrelas tomassem conta de seu céu.
E assim a vida vai seguindo seu curso normal...