Observo muito. Percebo e tento compreender como as coisas funcionam na vida real, mas gosto de fazer suposições, de sentar no banco do ônibus e pensar nas pessoas, na vida que elas possuem e o que elas estão deixando para trás ou encontrando quando pegam esse meio de transporte que, ao mesmo tempo é extremamente cheio mas tão vazio. As histórias que as pessoas carregam dentro de si não importam - elas, quando entram em um ônibus, são passageiros, um número apenas, sujeito a um assalto ou a um acidente fatal. Você nunca sabe exatamente o que vai acontecer quando embarca - apenas coloca sua vida na mão do motorista, uma pessoa que você não conhece, na maioria das vezes. Você está confiando sua vida a um estranho. Esquisito, não é? Pois é, isso que observo quando sento no banco do ônibus e enxergo as pessoas. Minha viagem vai além da física que estou tento, ela ultrapassa os limites do inteligível, geralmente.
Quase sempre, há um casal sentado na minha frente. Minha concepção romântica do amor não agrada a todos, mas se eu não for romântica, quem será? Ninguém será por mim. Observo que muitas pessoas no mundo não podem estar com as pessoas que amam nesse exato momento e que, provavelmente dariam tudo para serem as protagonistas daquela cena apaixonada. O amor é algo confuso. Dá dor no estômago. Por exemplo: agora, nesse instante, há um casal impossibilitado de estar junto, por diversas razões. Distância, amor não correspondido, opção sexual. Há fatores que simplesmente separam pessoas, que poderiam estar sorrindo no lugar de estarem pensando na pífia vida que estão levando. Aliás, a questão sexual me intriga. Na Bíblia está dizendo que homens e mulheres precisam casar e procriarem, para darem continuidade na vida na terra. No século XXI, isso não passa de conversa fiada. Sinceramente, penso porque as pessoas ainda querem ter filhos - o mundo não precisa mais de pessoas que sofram nele. O mundo não é mais um lugar interessante para se habitar. Parece um pensamento pessimista, mas é a pura verdade. Coloque o dedo na consciência e me diga - você, pessoa que me lê nesse instante, acha que o mundo atual é um lugar para se ter, criar filhos? Você irá discordar comigo. Discutirá e argumentará, dizendo que isso não faz sentido, já que há lugares melhores para se criarem bons seres humanos, que há exceções, que o mundo está mudando para melhor. Mas, no fundo, você sabe que a humanidade está definhando. Isso aqui não é mais um lugar para sonhos e risadas infantis, infelizmente. Pessoas são números, sentimentos são jogados no lixo, sonhos são pisoteados. A vida nunca foi fácil, mas ela está pior, leitor, não está? E ainda sim, você procura um filete de luz na escuridão, a corda que irá te salvar no final das contas.
Eu observo. Vejo que gays lutam para serem reconhecidos em uma sociedade egoísta. Que pessoas que não tem a mesma cor sofrem preconceito. Que pessoas queridas morrem, mas assassinos cruéis vivem e continuam a matar. Vejo que o amor supera, em um tempo que o conceito foi ignorado. Vejo que crianças querem mudar o mundo. Vejo árvores, vejo certos olhos amendoados que gostaria que me guiassem serem obscurecidos constantemente. Vejo carros e transito. Vejo Rock in Rio e pessoas passando fome, vejo Copa do mundo e enchentes que matam todo o verão - aliás, quantos morreram esse ano? O verão se aproxima. Vejo pessoas passando na rua, se esbarrando e não se importando com a vida alheia. O mundo é um lugar cruel, leitor. A vida é uma viagem sem volta - a partir do momento que você desembarca aqui, precisa ir até o fim da linha e fazer algum tipo de parada significativa no caminho todo.
Continuo acreditando em milagres de natal, apesar de observar coisas ruins. Há, dentro de mim ainda, um certa esperança. Sou criticada constantemente em encontrar cor em coisas cinzas, talvez seja por isso que sempre vejo esse dualismo. A humanidade me assombra, mas me surpreende de forma incríveis - sei que isso soa um pouco bipolar, mas é necessário que haja trevas para que exista a luz, não é assim que dizem?
Leitor, sei que você possui seus sonhos. Seus amores, seus desejos, suas fantasias. Eu tenho várias, mas no fim das contas, só queria ser feliz, apesar de observar constantemente o mundo como um lugar que não comporta mais sonhos. Minha visão pessimista do mundo é a real, mas você sempre pode se refugiar no seu próprio universo, na sua bolha, com aquela pessoa que você sabe que é a peça faltante do quebra cabeça ou sozinho. Não importa mesmo, leitor. Apenas desejo que você, como eu, observe toda essa tristeza e acinzentada vida e encontre esperança nos lugares mais inesperados. É assim que observo. E continuarei observando. Pode parecer confuso, mas é assim, basicamente.
Deixo apenas uma questão, para você que leu toda essa minha visão sobre o todo que me rodeia: afinal de contas, o que você vê?