13 graus
by Emily
Hoje
acordei com uma meia a menos no pé. O frio retornou a capital paranaense e com
ele, a utilização dessas coisas pequeninas que mantêm o calor onde ele precisa
estar. A parte engraçada disso tudo é olhar para um pé protegido e o outro não
e você ri, mas se incomoda com aquele desequilíbrio estranho que em alguma
parte da noite faz aquele pé de meia se jogar no chão.
O
frio traz estranhos desequilíbrios. Com ele vem gripes, resfriados, alergias,
ataques de bronquite, asma, chuvas nos piores momentos do dia e aquela sensação
incômoda de que tem algo errado com o mundo e a única coisa que pode resolver
isso é ficar na cama, com os par de meias protegendo seu corpo do estranho. Desequilíbrios
são sempre bem vindos, em pequenas quantidades, para dar um período de
adaptação. Por isso que sempre antes do inverno vem o outono. Mas é no frio que
as pessoas se olham nos olhos, se vestem elegantemente, saem de casa porque
querem – não que antes isso não existisse, mas fica mais evidente. Mas o desequilíbrio
está aqui ainda, batendo a porta, e eu tive que colocar o outro pé da minha
meia, porque havia necessidade: já estava fora da cama, enfrentando tudo o que
o mundo tem de pior e de melhor. O mal humor das pessoas, o ônibus lotado, a
sala vazia, as amizades complicadas, os amores que não existem, o trabalho que
sufoca, aquela vizinha chata que ouve música gospel no melhor momento do dia, o
colega chato no elevador: mil e um motivos para que o frio piore a vida e bem,
você está de pé. Com meias ou sem meias, parado no semáforo esperando ele abrir.
Você levantou da cama. Enfrentou o desequilíbrio, mesmo espirrando e desejando
fugir. E você lê isso nesse momento e lembra que as gripes passam, que a tosse
vai embora e que sempre há uma forma de voltar para sua cama quentinha. Lembra do
chá ou do leite quente que sua mãe levava na cama quando você se sentia mal e
não queria ir pra escola, relembra do toque suave das mãos dela e do cheiro de
alho, sabão ou giz que vinha como um conjunto. Sabe que no fundo, essa gripe
que te assola nessa tarde fria te deixa ranzinza e brava com o mundo, mas isso
sempre passa e bem, a vida continua e o semáforo abre. E você vê o ônibus que
precisa pegar pra não chegar atrasada na aula, no trabalho ou no médico e faz a
matemática: terei que correr. E você corre, corre e sente aquele vento frio
cortando, queimando, mas você sorri. E bem, isso pode ou não mudar o seu dia,
mas você sorri de qualquer forma, porque sabe que sorrir é o melhor remédio.
E
agora eu conto os meses para a primavera, minha estação favorita, porque o
inverno quase bate a minha porta. Conto os meses para que minhas meias sejam
guardadas no fundo da gaveta, junto com meus remédios de gripe e resfriado. Não
porque não goste do frio, de maneira alguma – mas sim porque consigo colocar meus
pés nus no chão, sem medo de perder meias durante a noite.