13 graus

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Hoje acordei com uma meia a menos no pé. O frio retornou a capital paranaense e com ele, a utilização dessas coisas pequeninas que mantêm o calor onde ele precisa estar. A parte engraçada disso tudo é olhar para um pé protegido e o outro não e você ri, mas se incomoda com aquele desequilíbrio estranho que em alguma parte da noite faz aquele pé de meia se jogar no chão.
O frio traz estranhos desequilíbrios. Com ele vem gripes, resfriados, alergias, ataques de bronquite, asma, chuvas nos piores momentos do dia e aquela sensação incômoda de que tem algo errado com o mundo e a única coisa que pode resolver isso é ficar na cama, com os par de meias protegendo seu corpo do estranho. Desequilíbrios são sempre bem vindos, em pequenas quantidades, para dar um período de adaptação. Por isso que sempre antes do inverno vem o outono. Mas é no frio que as pessoas se olham nos olhos, se vestem elegantemente, saem de casa porque querem – não que antes isso não existisse, mas fica mais evidente. Mas o desequilíbrio está aqui ainda, batendo a porta, e eu tive que colocar o outro pé da minha meia, porque havia necessidade: já estava fora da cama, enfrentando tudo o que o mundo tem de pior e de melhor. O mal humor das pessoas, o ônibus lotado, a sala vazia, as amizades complicadas, os amores que não existem, o trabalho que sufoca, aquela vizinha chata que ouve música gospel no melhor momento do dia, o colega chato no elevador: mil e um motivos para que o frio piore a vida e bem, você está de pé. Com meias ou sem meias, parado no semáforo esperando ele abrir. Você levantou da cama. Enfrentou o desequilíbrio, mesmo espirrando e desejando fugir. E você lê isso nesse momento e lembra que as gripes passam, que a tosse vai embora e que sempre há uma forma de voltar para sua cama quentinha. Lembra do chá ou do leite quente que sua mãe levava na cama quando você se sentia mal e não queria ir pra escola, relembra do toque suave das mãos dela e do cheiro de alho, sabão ou giz que vinha como um conjunto. Sabe que no fundo, essa gripe que te assola nessa tarde fria te deixa ranzinza e brava com o mundo, mas isso sempre passa e bem, a vida continua e o semáforo abre. E você vê o ônibus que precisa pegar pra não chegar atrasada na aula, no trabalho ou no médico e faz a matemática: terei que correr. E você corre, corre e sente aquele vento frio cortando, queimando, mas você sorri. E bem, isso pode ou não mudar o seu dia, mas você sorri de qualquer forma, porque sabe que sorrir é o melhor remédio.
E agora eu conto os meses para a primavera, minha estação favorita, porque o inverno quase bate a minha porta. Conto os meses para que minhas meias sejam guardadas no fundo da gaveta, junto com meus remédios de gripe e resfriado. Não porque não goste do frio, de maneira alguma – mas sim porque consigo colocar meus pés nus no chão, sem medo de perder meias durante a noite.