Chances

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Vestida de branco, com um belo buquê de azaléias brancas nas mãos, de frente para a porta da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde fui batizada, fiz minha eucaristia e crisma, estava esperando para entrar e realizar meu sonho de infância: casar.

Mas, foi nesse momento que veio um flashback diante de meus olhos. Minha mãe disse que seria normal eu ver ou sentir alguma coisa antes de atravessar a nave da igreja. Disse também que eu tinha opções...

Opções... Lembrei-me de como conheci meu noivo.

Num dia chuvoso e extremamente frio, saindo do estágio e me dirigindo a universidade, parei num café ali perto, para esperar a chuva passar um pouco e comer alguma coisa, pois era o horário do almoço. Pedi um capputtino com pão de queijo, mas não tinha nenhum dos dois. Então, restavam-me duas opções: um café puro com torradas ou chá mate, típico de Curitiba, minha terra, com misto quente.

Foi então que entrou correndo um homem estranho ali: de sobretudo marrom, igual ao do Sherlock Holmes, alto, de cachecol azul marinho, com olhos verdes estranhamente claros, um pouco escondidos atrás dos óculos, num rosto redondo e com as maças do rosto vermelhas por causa do vento. Andava torto, com uma grande pasta na mão e mochila pendurada no braço e se dirigiu até a cadeira a meu lado, no balcão. Jogou suas coisas ao lado oposto de onde estava e inspirou fundo. Achei graça em seu jeito e sorri disfarçadamente.

—A srta. já decidiu o que quer? - a garçonete perguntou.

—Um mate, um pouco mais doce e misto quente, por favor.

—O mesmo pra mim. - o homem a meu lado pediu e sorriu para mim.

Depois de pedir, ele retirou da bolsa um livro que eu reconheceria a kilometros de distância: “O Jogador”, de Dostoievski, o meu autor favorito depois de Willian Shakespeare. Vi que estava diante de um espécime raro de pessoa e tive que perguntar:

—Gostou do livro?

—Ele é perfeito. Mas ainda prefiro “Recordações da casa dos mortos” desse mesmo autor.

—Sou muito fã dele. Tenho esses dois e mais uns 7 em casa. - disse sorrindo.

—Também sou muito fã dele. Já li esse umas 4 vezes.

Suspirei feliz.

—Cecília. - e estendi minha mão para cumprimentá-lo.

—Bruno - e fez um gesto que me surpreendeu: pegou minha mão e a beijou.


Bruno tinha vinte e um anos e fazia biologia na UFPR, enquanto eu fazia letras, então, sempre nos víamos por lá, muitas vezes na biblioteca terminando apressadamente alguns trabalhos. Depois que me conheceu, ele trocou seus óculos por lentes de contato e começou a usar roupas mais para sua idade, que o deixou mais lindo do que já era.

E foi assim durante dois meses. Saíamos no mesmo horário da universidade e íamos direto para um café ou uma lanchonete, onde conversávamos sobre tudo. Estávamos felizes juntos, como amigos, mas chegou um momento em que tudo mudou.

Um belo dia, depois da aula, ele me apareceu com uma mulher para apresentar, dizendo que era sua namorada.

—Essa é a Isabel, Ciça. - e vi que em seus olhos havia um certo divertimento em ver que eu estava um pouco incomodada com aquela presença ali, do lado dele.

Naquele momento vi que estava apaixonada por ele.

Depois daquele dia nosso relacionamento mudou. Ele ficava mais com sua namorada do que comigo, e sabia que isso me chateava. Quase três semanas depois daquele dia, liguei para ele, dizendo pra ir até minha casa para conversar. Em vinte minutos ele estava sentado no meu sofá, de frente para mim, fazendo a seguinte pergunta:

—Porque você me chamou até aqui, Ciça? Porque não disse por telefone mesmo? - ele disse sereno.

—Eu estou de saco cheio de você me deixar de lado por causa de sua namorada, Bruno! - disse quase gritando e chorando, enquanto me levantava do sofá. - Ela é a mulher que você escolher pra ficar do seu lado, tudo bem, mas eu sou sua amiga, aquela que cuidou de você quando estava com gripe, quando passou mal na aula de anatomia... Você me descartou... - e as inevitáveis lágrimas apareceram em meu rosto.

—Eu não estou mais namorando, Cecília. - ele disse tranqüilo, passando sua mão suavemente nas áreas molhadas de meu rosto.

Meus olhos se arregalaram diante do susto.

—Como? Ontem você falou pra mim que não podia me dar carona...

—Porque estava como Isa. - ele completou sorrindo. - Se te disser uma coisa você vai ficar brava comigo? - ele disse, pegando em minhas mãos.

—Depende. - eu disse desconfiada.

—Eu menti pra você essas três semanas. Não estava namorando aquela menina. - ele disse envergonhado.

Fiquei com raiva

—O quê? Você mentiu pra mim? - e comecei a dar socos em seus braços e no peito, enquanto chorava mais um pouco.

Ele me abraçou forte, enquanto me debatia em seus braços.

—Menti pra você porque queria fazer ciúmes. Queria que você percebesse o que realmente sente por mim. - ele disse, pegando meu queixo e levantando-o.

Parei naquele momento, com uma expressão confusa nos olhos.

—Se você está pensando que eu te amo, acertou. - ele disse e foi se aproximando de minha boca.

Então ele me beijou. Depois foi a minha vez de falar.

—Não precisava ter mentido pra mim. Eu também te amo. - e nos beijamos mais umas mil vezes naquele dia.

Um pouco mais de um ano depois, nas escadarias da universidade, chovendo litros, como sempre, Bruno pegou minha mão, ajoelhou-se e eu comecei a chorar, prevendo o final daquilo.

—Cecília Guimarães, a mulher que eu amo e vou amar até o final da minha vida, aquela menina que escreve poemas olhando o pôr do sol a meu lado, aquela que gosta do mate mais doce, que sempre esquece o celular na minha casa, que faz uma pipoca caramelada como ninguém e tem um jeito delicado e encantador, aceita se casar comigo?

—É lógico! - e pulei em seu pescoço, me sentindo a pessoa mais feliz do mundo.

Oito meses se passaram desde aquele pedido, e eu estava ali, á apenas alguns passos de tornar realidade o meu desejo e o dele de passarmos o resto da vida juntos.

Eu o amava muito, mas faltava algo...

Digamos que eu pensava que ele não era como o Romeu, aquele que desejava ter a meu lado. 

Isso me fez ter outra recordação...

Com dezesseis anos, troquei de colégio e conheci várias pessoas legais, que me acompanham até hoje, como a Bia, minha madrinha de casamento. Mas eu também conheci um garoto, que mexeu com as frágeis estruturas de meu coração adolescente: Danilo...

Eu não gostava dele, de maneira nenhuma, principalmente por ele ter quatorze anos, não ser bolsista como eu, ser extremamente idiota e o menino mais popular do colégio. Entretanto, quando acabei sendo colega de carteira dele, conheci seu outro jeito, aquele que não mostrava pra ninguém. Assim, acabou me cativando e quando eu menos esperava, estava apaixonada por ele. Demorou, mas eu percebi que ele também gostava de mim, mas tinha vergonha e não falava nada. Então ficávamos nos abraços calorosos, nos beijos no canto da boca, de mãos dadas... E não passava disso.

Nesse meio tempo, consegui ser a diretora da adaptação de “Romeu e Julieta” e dei para Dan o papel principal, o de Romeu, para ficar mais perto dele.

Digamos novamente que fiz tudo muito certo, pois, em alguns ensaios, para ajudá-lo, algumas cenas eu sussurrei no ouvido dele, dizendo que ia à casa da Bia ou na Juliana, mas estava na casa dele, até tarde da noite.

No último ensaio na casa dele fiz uma coisa que até hoje, quando penso, vejo que foi quase irresponsável: acabei dormindo por lá, falando pra mãe dele que ficaria no quarto da Brenda. Então fomos ensaiar a cena que ele estava com mais dificuldade, a da janela, depois que todos foram deitar. Apaguei as luzes, sentei de seu lado e comecei a sussurrar, como sempre, as falas em seu ouvido:

—Eu não estou aqui, ninguém está aqui. Agora imagine que você está no auditório, vestido de Romeu e a Chris está lá de Julieta, na janela. Imagine o que quiser, mas saiba que tudo o que você precisa está no seu coração.

Houve um momento de silêncio. Então senti suas mãos em meu quadril e ele me puxou até seu colo. Conseguia ver seus olhos brilhando através da pouca luz da lua que passava pela janela entreaberta.

—Tudo o que eu preciso está bem aqui, em minhas mãos. - ele disse no meu ouvido.

—Onde? - e eu comecei a procurar algo em suas mãos. Foi então que ele as suas com as minhas entrelaçou e continuou.

—Você disse que tudo o que eu precisava estava em meu coração. Então, dentro dele há você.

Fiquei sem ação por alguns segundos.

—Você diz isso para todas. Diz pra mim também, mas de brincadeira. - disse triste.

—Dessa, e das outras vezes que disse isso pra você era verdade. Eu amo você - disse com a voz séria, tranquila.

Era verdade. Ele me amava.

Então ele me beijou. Só isso. Não aconteceu mais nada naquela noite. Ficamos deitados na varanda de sua casa, olhando as estrelas e fazendo juras de amor.

Dos dezesseis aos dezenove anos fui muito feliz. Tudo o que eu poderia querer e sonhar ao lado de alguém aconteceu com ele. Dançamos na chuva, fizemos guerra de travesseiros, piquenique no parque, fomos para praia, ficamos na rua, sentados no meio-fio, vendo as estrelas até o sono pegar... Descobrimos-nos juntos, depois de assistirmos “Romeu e Julieta” original, no sofá da sua casa...

Mas um dia ele teve que ir embora.

E a distância acabou com nosso castelinho de areia.

Foi aí que eu conheci o Bruno.

A Bia diz que eu sempre vou amar o Danilo, mas ele está longe de mim, em Londres, e nem deve se lembrar de mim. Diz também que eu estava me casando com o Bruno porque os dois se parecem muito e eu estava transferindo o que eu sentia de um para o outro.

Era nisso que eu pensava antes de entrar na igreja.

Deveria ter ido embora com Danilo quando podia. Mas não fui.

Foi pensando nisso que ouvi, em minha cabeça, minha mãe falar.

—Opções, Cecília... Você é livre para fazer o que quiser.

Instintivamente, me virei e vi alguém que não esperava ali.

Danilo.

—Vim porque me disseram que você iria casar. - ele disse, abrindo os braços. Corri até ele, para abraçá-lo forte. Soltei depois, lembrando que amassaria o vestido.

—É o que parece, né? - disse, rindo nervosamente.

—Você está tão linda, Ciça. Nunca te imaginei mais linda do que já era, mas conseguiu. - ele disse, pegando em minha mão.

—Obrig-g-g-gado - disse gaguejando.

Ele sorriu.

—Parece nervosa.

—Estou muito nervosa. É meu casamento, Dan. - disse irritada

—Por quê? - ele perguntou divertido.

Fiquei irritada novamente com aquilo.

—Você sabe Dan. - disse com raiva.

Ele ficou sério de repente.

—Você deve estar pensando que eu vim até aqui pra fazer você desistir do casamento, não é? - e cerrou um pouco os olhos. Aquele era sinal de que ele estava falando a verdade.

Assenti com a cabeça positivamente para a pergunta.

—Foi sua mãe que ligou para mim. Não me pergunte como ela conseguiu meu número porque eu realmente não sei. - ele disse, se explicando, já que eu desconhecia seu telefone. - Então ela me pediu para vir até aqui, para te ajudar a ver o que você realmente quer: um futuro construído num passado inacabado ou um presente para construir um lindo futuro?

Era isso que minha mãe tanto falava... Essas eram as opções...

Um futuro construído no passado... ou

Um presente construindo um futuro?

—Há mais ou menos uns 7 anos atrás você me disse uma coisa, para me ajudar na peça, lembra? - Dan perguntou.

—Mais ou menos... - disse, tentando me recordar daquela noite.

—Era assim: “saiba que tudo o que você precisa está no seu coração.” E eu disse... - e deixou no ar, para eu completar.

Foi aí que uma terceira opção se abriu: um passado feliz, mas que acabou, dando lugar ao um presente maravilhoso, que dará inicio a um belo futuro.

— Tudo o que eu preciso está bem aqui, em minhas mãos. - completei, com lágrimas em meus olhos. - Obrigada Dan. Pode mandar abrir as portas da igreja. - disse por fim, vendo que meu coração sempre soube o que eu queria.

Danilo sorriu, vendo que sua missão estava quase cumprida. Faltava só ele me levar até o altar.

Casei-me. E tenho a certeza que essa era sempre a melhor decisão que eu poderia tomar para ser realmente, e de uma vez por todas, feliz, com novas opções todo dia.

Pois tudo é feito de escolhas.

E eu escolhi a melhor delas: a felicidade.