Memórias de um moribundo
by Emily
‘’Antes que você me pergunte, eu não quero o seu perdão. Só irei dizer algumas coisas nesse pouco tempo que me resta de lucidez e vida, para que possa refletir sobre tudo o que aconteceu.
Por 23 anos você esteve do meu lado, mas, foi somente você que esteve. Eu nunca fui capaz de ficar ao seu, te ajudar e de ser um homem decente. Parece ‘piegas’, mas não é, porque a gente só dá valor aquilo que tem quando perde, ou vai perder, no meu caso. Depois que eu morrer, você irá chorar, ficará alguns dias de luto, mas, voltará a sua antiga vida, pois é jovem, bonita e sempre quis viver intensamente todos os momentos.
Lembro como se fosse hoje do dia que eu te vi pela primeira vez, na biblioteca pública, em meio a uma pequena pilha de livros de literatura. Você levantou os olhos para mim e enrubesceu. Sorri e perguntei se você estava ocupando a cadeira ao lodo, pois a biblioteca estava cheia. Você disse não e voltou as anotações sobre um livro relativamente grande. Imaculadamente, você continuou lá, lendo e escrevendo, enquanto eu arriscava poucas palavras falando com você. Por fim, quando estava juntando suas coisas, me disse para ligar e escolher um filme até sexta, para irmos ao cinema. Perguntei-lhe se você sabia que eu iria ligar, mas somente sorriu e saiu. E foi assim que aconteceu.
Talvez, aquele dia que você disse um ‘eu te amo’ molhado pelas lágrimas, eu devesse ter dito ‘eu também’, pois era a grande verdade que eu escondia, pelo fato da sociedade nunca entender o amor de uma garota de 17 anos por um homem de 30. A maldita sociedade que me transformou em um espécime desprovido de amor e carinho, pois eu havia rejeitado aquela que amava mais que a vida, mais que meu amor à ciência. Talvez eu pudesse dizer ‘vamos ir para um lugar aonde só exista o nosso mundo, onde viveremos sem ter que se esconder ’ naquela época também. Acho que, enquanto lê essa carta, deva estar rindo, chorando, ou se perguntando: ‘ acho que ele teve algum dano sério no cérebro em razão do câncer’. Não, minha querida Luiza, isso aqui que está escrevendo é o verdadeiro eu, o Gabriel que você conheceu e se apaixonou, mas não aquele que você viu.
Lembra do que eu te disse, há sete anos atrás, quando você me ligou, às 2 horas da manha para ir ao seu apartamento? Pela primeira vez em 15 anos, eu mostrei quem eu realmente era.
- Você sabe o que realmente sinto, mas eu não posso te dar um futuro. Sou velho, Luiza. Merece coisa muito melhor.
Quando disse aquilo, seus olhos se encheram de lágrimas e, sem nenhuma palavra, tocou levemente meus lábios com os seus. Aquele dia resultou numa pequena coisa chamada Miguel. Na maternidade, eu ouvi você dizer para sua mãe a seguinte frase, que sempre me vem à cabeça:
- Esse pedaço do Gabriel ninguém vai tirar de mim. Se eu não posso tê-lo em meus braços continuamente, com essa miniatura posso substituir sua falta.
- Luiza, há mais de 15 anos esse homem te faz sofrer. Você vai perder mais 15 tentando segurá-lo com esse filho? – sua mãe respondeu rispidamente.
Ela tinha razão. Você queria me prender por causa do Miguel. Mas sabia que era a minha escolha. Eu nunca ficaria com você para sempre, pois somente te faria perder tempo comigo. Os fatos não mentiam, sempre me jogavam na cara que você era jovem, e que seria uma injustiça tê-la a meu lado.
Tive meus momentos bons com você, mas nem desconfiava que fossem. Lembra daquele buquê gigante de azaléias brancas que estava na porta do seu apartamento no seu aniversário passado? E você achando que foi o seu vizinho lindo do 278. Flores no aniversário, telefonemas no natal, dizendo simplesmente para você ‘feliz natal e se cuida’, as raras vezes que eu consegui sorrir para você e te fazer sorrir, não chorar, como era de costume, fazem dessa pessoa que escreve, pelo menos por alguns segundos, sentir-se um ser humano.
Ah, quem me dera não ser tão racional! Eu poderia ter sido feliz a teu lado, poderia ter feito você também, mas a ética e o senso crítico me fizeram ter a pior escolha da minha vida. E eu me mutilava e mutilo até hoje, por não ter sido um ser humano verdadeiro. Escondi-me atrás de paradigmas, da sociedade, de valores e princípios, de tudo. Isso porquê, certamente, tive medo de entregar meu coração a você.
Nos últimos tempos, quando já estava com a saúde debilitada, você disse:
- Lutamos por tanto tempo para ficarmos juntos, mas parecia que era você que não queria. Eu não sei o que o fez relutar tanto assim, mas a gente perdeu. Talvez a vida tenha tornado as coisas um pouco mais complicadas, mas, não precisava ser assim. E eu vejo que tudo o que você fez para ficar longe de mim foi em vão, pois, era a lei das coisas: uma parte sua era minha, e você nunca ia embora por causa dessa parte. E nunca vai. Você vai ser sempre meu, relute, brigue ou fale o que quiser. E eu vou sempre ser sua. – e me beijou.
O que eu podia dizer? Que você estava errada? Não, claro que não.
Infelizmente, uma parte de mim mesmo decidiu o que era melhor e vivi infeliz por 53 anos, desejando tê-la em meus braços e só tendo a tristeza da solidão consentida, da distância não falada, da dor indolor, da ausência entendida, da falta de amor concreta, do calor do frio, da vida vazia e do coração quebrado.
Você há alguns minutos atrás, me fez prometer que, se ficasse bom, nos casaríamos, na igreja, e eu prometi, pois sei que não viver por muito mais tempo. Há algo infinitamente bom nessa afirmativa.
Sem mais delongas, digo que te amei. E que isso não vai mudar nada, mas foi o que me manteve vivo e lúcido por tanto tempo.
Uma última consideração: a vida não foi má comigo. Foi injusta com você, te fazendo amar alguém como eu. E obrigada. Você sempre será a lua na minha contínua noite fria. ’’
Pequenos fatos depois de terminada a carta.
- Gabriel não morreu.
- Agora, a vida se encarregará do resto...