Ele havia
partido havia algum tempo. Comecei a parar de contar quando vi um foto dele no
facebook com outra garota. Bem, era o direito dele, como era o meu também em
pegar uma garrafa de vinho e esvazia-la.
Tranquilidade
era uma palavra que dominava minha vida nesse meio tempo. Era estranho não tê-lo
em minha cama nessa primavera, que estava fria demais para as expectativas meteorológicas,
desconfortável dividir o banco do ônibus de volta ao apartamento no subúrbio
que dividimos por um tempo. Nunca imaginei que sentiria falta dele dessa forma.
Se ele sentia
a minha? Era uma questão com múltiplas alternativas e várias delas que me
levariam a decadentes lágrimas. Ele me ligava, dizia que estava tudo ótimo em
sua nova cidade, com seus novos amigos e várias oportunidades de encontrar uma
pessoa diferente. Walk after you fazia
tanto sentido que meu media player já havia classificado essa música com 5
estrelas. Nunca havia gostado de Foo Fighters antes dele, muito menos de Alter
Bridge. Sentimentalismos a parte, depois que ele se foi, tive muito mais tempo
de conseguir a minha tão sonhada graduação na Espanha. Se eu chegasse à
Espanha, um mundo novo se abriria e essa falta que sentia do Lucas iria embora
e o que ficariam seriam lembranças boas e só isso. O pensamento era tão idiota
que me reconfortava.
Desde pequena,
nunca tive tudo o que desejava, então quando a maturidade veio, o que mais
queria era poder reverter essa situação. Fiz sacrifícios, deixei pessoas para
traz, tantas que quando certa quantia chegou, parei de contar. Mas, se eu
ganhasse a bolsa de estudos em Toledo, poderia ter todos os amigos que tive que
deixar, todos os amores e refazer todos os poemas. O lirismo iria voltar, os
sonhos, até os sorrisos. Era uma calma e uma certeza que não sabia de onde
vinha.
Eu era uma boa
atriz e uma rainha do drama nata. Era meu charme, algo que fazia meu melhor
amigo rir. Mas Miguel sabia onde estava a ferida e tocava nela com força. Um de seus argumentos era que Lucas era o
único que iria aguentar minhas crises literárias e meus Beatles as quatro da manha,
além dele mesmo, claro.
Eu vivia
nesses devaneios, principalmente quando estava sozinha. Era uma forma de deixar
a vida mais suave, semelhante a esses livros adolescentes.
Foi nesse
momento, sentada na cadeira de balanço e olhando da janela do quarto andar,
ouvi batidas na porta. Abri e vi que era Miguel com duas cartas na mão e um
sorriso gigante no rosto.
- Acho que sou
portador de grandes notícias. – ele disse, me abraçando.
- Trouxe
vinho? – respondi, rindo.
Ele me olhou
de cara feia e depois passou os olhos na mesa, onde havia quatro garrafas
vazias de vinho.
- Bebeu tudo
isso sozinha?
Balancei a
cabeça em sinal positivo e senti o mundo rodar ao meu redor. Era ressaca?
Ri
internamente e me sentei na cadeira, antes que chão se atraísse, como mágica,
ao meu corpo.
- Quais são as
boas notícias? Saiu ontem de noite e finalmente arranjou uma namorada e assim
irá trocar sua fiel escudeira aqui por um lugar onde irá enfiar s-
- Por favor,
sarcasmo saindo da sua boa é ridículo, Catarina. – ele me interrompeu. – Sentir
falta é normal, sabe? Já te disse que eu não te vi chorar desde que o Lucas foi
embora? Você faz isso sozinha, enrolada naquele moletom fedido que ele esqueceu
aqui? – ele disse depreciativo.
- Ignorei o
que você falou quando disse “ridículo”. – falei, enrolando-me em meu robe, indo
em direção à janela.
- Ok, ok,
vamos aos negócios então. Tenho nossas cartas sagradas aqui. Chegaram mais cedo
na universidade. – ele disse, vindo em minha direção.
- Achava que
elas seriam encaminhadas para cá. – meu coração batendo uma oitava mais alta e
duas vezes mais forte.
- Vamos abrir
logo? – ele disse com um sorriso no rosto, me estendendo minha carta.
Eu sabia que
tudo iria mudar se o conteúdo daquela carta fosse positivo. A saudade, a
tranquilidade, até esse desejo repentino de beber várias garrafas de vinho. Lucas
se tornaria um capítulo da minha vida. Eu iria começar tudo de volta, com uma
felicidade enorme.
Abri com
cuidado e li cada letra meticulosamente.
- Fui
aprovada. – falei em um fio de voz.
Miguel olhou
para mim e me abraçou tão forte que imaginei que fosse perder o ar, por alguns
minutos. Eu estava em choque. Meu sonho finalmente tinha se tornado realidade.
Meus esforços não foram a toa. Eram tantos pensamentos enquanto que rodeavam
minha mente e quando senti os braços de Miguel me deixando, encontrei o chão. Ele
ficou assustado e se sentou no chão comigo, rindo com uma expressão preocupada.
Ele deve estar pensando que eu iria ter uma crise ao algo do gênero.
- E você? Eu
estou bem, abra a sua logo, por favor. – eu disse com a voz exaltada.
Ele abriu, leu
rapidamente e, com os olhos iluminados, levantou seu olhar da carta e disse:
- Eu também.
Gritamos,
rolamos o chão, gritamos mais um pouco e pulamos muito. Eu e Miguel, em Toledo.
Era tudo o que eu havia sonhado.
Com os ânimos
acalmados, atualizei meu status no facebook com a seguinte frase: “Alô chicos,
Toledo espera de braços abertos eu e Miguel como futuros estudantes! Muito
obrigado por todos que nos ajudaram para que esse sonho se realizasse!”.
Várias pessoas
comentaram e nos parabenizaram, alegres com nossa vitória. Era tão
inacreditável que meus nervos ainda estavam sensíveis. Foi quando um comentário
em especial me chamou atenção.
“Lucas
Santiago: Espero que isso seja o que você tanto procurou, Catarina e que isso vá
valer a pena realmente. Você sacrificou muita coisa para ter essa bolsa, então
boa sorte. Que sua nova e brilhante vida seja como você sonhou.”
Bom, era o que
eu queria mais do que qualquer coisa no mundo. Talvez eu estivesse errada, mas
só tenho uma vida, uma chance e não iria desperdiçá-la, mesmo que para vivê-la
tenha que deixar o maior sonho que já tive para trás.