Um lugar que costumávamos conhecer.
by Emily
Ele beijou minha testa, suavemente, como se não fosse a última vez. Sem querer, deixei meu livro cair no chão diretamente na poça de água que a chuva estava formando.
- Droga, era meu livro favorito! - exclamei.
- Não ligue, ele já estava cansado de tantas vezes que você o leu. - ele me disse, com a voz embargada.
Droga.
- Não vá. - eu disse, abraçando-o.
- Não vá você. - ele respondeu, sorrindo.
- Eu queria ir, mas e os meus sonhos? Como ficam? - respondi, sentindo uma lágrima descendo, devagar como uma faca deslizando em meu pescoço.
- Nós tínhamos planos, sonhos juntos. Nossa casa perto de uma montanha, com o rio passando... Filhos. - ele respondeu, pegando minha mão.
- Eu quero ser grande, ser melhor que isso, quero ser alguém com que você se orgulhe. Não nasci para ser alguém que fica na sombra. Quero viajar, conhecer pessoas, escrever um best seller, ficar marcada.
- Você já brilha demais, Catarina. - ele disse triste.
- Não o suficiente. - retruquei irritada.
- Foram 3 anos muito bons, sabe? Suas poesias, logo de manha eram muito revigorantes - se bem que eu gostava mais dos seus escritos eróticos. - ele disse rindo.
- Eu sempre me inspirava nas nossas noites, no nosso amor. - abracei-o, deixando o guarda chuva cair. Não importava mais, de qualquer forma.
- Eu te amei desde aquela noite, sabia? Quando você disse que estava na universidade, mostrando ser tão superior a mim, tão melhor. Mas, por incrível que pareça, você disse que fazia um tempo que tinha escrito um conto e o personagem principal tinha se personificado em mim. Você, com sua imagem alto depreciativa, com o coração partido, gostou de mim. E foi assim que tudo começou.
- Por favor, você não está escrevendo uma postagem no facebook, certo? - falei rindo.
- Não, isso é clichê demais. Todo mundo sabe que eu te amo.
- Todo mundo sabe que eu gosto de Charlotte Brontë.
- Você não tá fazendo isso se tornar fácil para ambos.
Empurrei-o para olhar em seus olhos.
- Olha, você me curou de tudo ruim que havia na minha vida e por isso serei eternamente grata. Eu te amo e vou amar para sempre, independente dos nossos sonhos. Seus grossos e densos cabelos enrolados, sua voz suave e o jeito que você me toca nunca deixará de ser a melhor coisa que já tive na minha vida. E não venha com esse discurso de que estou deixando você pelos meus sonhos e que não estou facilitando. Para estar com você eu precisaria estar completa e não estou, porque meus sonhos são coisas que não posso desistir, mesmo que tenha que deixar você ir. Queria que você ficasse e então eu me casaria com você, seria feliz com minha vida normal, mas esse conceito nunca fez sentido na minha vida. - as lágrimas que estavam esperando cair vieram violentamente. - Eu te amo para sempre, Lucas. Eu só não posso desistir do que eu quero.
Ele me olhou profundamente, formulando uma frase coerente, mas única coisa que saiu foi:
- Eu nunca fui seu sonho?
- Você sempre será o maior deles. - respondi entre soluços. As pessoas passavam e nos olhavam, como se fossem loucos.
Ele sorriu.
- Acho que isso é o suficiente.
- Vai logo, antes que eu mude de ideia. Isso aqui não é um filme. - disse, empurrando-o. Os soluços aumentaram.
- Eu não quero ir. - ele disse.
- Você deve ir.
- Você tá certa.
- Eu te amo, certo? Nunca duvide disso.
- Eu te amo também. Nunca se esqueça disso. - ele disse me abraçando, depois tomando meu rosto em suas mãos e me beijando ferozmente.
Mais calmos, os beijos se tornaram tranquilos, para se tornarem tristes.
- Adeus. - ele disse, segurando minha mão.
Apertei-as tão forte que pensei que quebrariam seus dedos.
- Adeus. - falei, controlando minhas lágrimas, ainda segurando sua mão.
- Você tem que me soltar, Catarina. - ele falou, beijando meus dedos. Não respondi, só meneei com a cabeça. Aquilo era pior do que eu via nos filmes americanos de fim de tarde.
Ele foi se afastando, lentamente, segurando minha mão, até que era impossível segurar por mais tempo.
Era o momento do adeus.
Soltei seus dedos, um por um, até olhar em seus olhos mais uma vez. Era o amor de toda uma vida que estava indo embora, desistindo de mim porque meus sonhos eram grandes demais. Mas o maior deles eu estava deixando ir.
Finalmente deixei sua mão cair no ar chuvoso. Chorei incontrolavelmente durante alguns minutos, até que me senti cansada pelo esforço. Lembrei-me do livro caído e recolhi-o, onde, por ironia, estava em uma página que me fez sorrir, apesar de tudo. O trecho em questão era do Poema An almost made up poem, de Charles Bukowski.
"se eu te tivesse conhecido teria provavelmente sido injusto contigo e tu comigo. foi melhor assim..."
Foi melhor assim. Um dia, quem sabe, eu não esteja te vendo ir embora, debaixo de uma chuva, levando uma parte de mim que nunca imaginei que pudesse pertencer a alguém.