Instrução
by Emily
Enrolei a caneta novamente no meu cabelo. Canetas são ótimos prendedores de cabelo, pelo menos para mim. O ônibus lotado de uma sexta feira cansativa e um celular no colo, com o player de música no aleatório. Aquele lugar cheirando a trabalho, cansaço, a alegria da chegada do fim de semana, a monotonia da vida toda confinada naquele meio de transporte.
Não existe lugar mais solitário do que um ônibus ou lugar com grande aglomeração de pessoas. Você vê rostos, vê as cenas, imagina o que se passa na cabeça dessas pessoas, mas elas estão todas vestindo suas máscaras, seus sorrisos falsos, suas facetas cansadas. A solidão que toma conta de toda uma população que apenas busca um momento de paz em suas vidas. O ato de enrolar essa caneta no meu cabelo muda toda a percepção que tenho das pessoas, ou talvez da minha vida, ela que anda um tanto quanto cinza ultimamente.
Meus cabelos caem nos ombros, de vez em quando e eu os deixo lá. Não importa o quão bagunçado ele esteja, o deixo sentir o vento que vem, de vez em quando - os verões em Curitiba sempre deixam os ventos de fora de sua programação. As pessoas notam meus cabelos caídos, mas não me importo. Ninguém se pergunta porque a garota deixa o vento beijar seus cabelos, mas nem ela sabe, certamente. Talvez ache que seus medos sejam apagados e suas perguntas, respondidas. Ela apenas quer, desesperadamente, ser feliz, com os cabelos soltos naquele ônibus que fede a decadência humana, ficar sozinha com suas madeixas.
Mas sabe qual é o problema? É que ninguém entende. Se importa. Ninguém. As pessoas são egoístas, tanto quanto eu sou, querendo manter a coisa que mais amo por perto, sem me preocupar com o que ela pensa ou não. As pessoas são más, machucam, destroem aquilo que amam, porque o ser humano é 50% destruição e 50% construção. Isso corre no nosso sangue desde que somos o que somos. Destruir e reconstruir. As pessoas fedem a seus sonhos, suas ambições. Aos seus pensamentos e ilusões, tão características a esse século, mas isso não nos impede de pegar o ônibus lotado às seis e meia da noite pensando o quão seria bom que tivéssemos amigos - pelo menos eu penso assim. Nunca vamos parar de sonhar e é isso que importa, na maioria das vezes, dessas pequenas ilusões que nos mantém de pé, nesse ônibus lotado e, ao mesmo tempo vazio, chamado vida.
Meus cabelos caem nos ombros e não ligo mais. Apenas pego minha caneta e os enrolo novamente. É verão, afinal.