Heathrow
by Emily
Me apaixonei. É, me apaixonei. Não, estou feliz sim. Claro que estou. Ah, como ele é?
Ah, é mesmo, esqueci desse detalhe. Me apaixonei por um lugar. Londres é o meu amor.
Foi amor a primeira (não) vista. Amei Londres como uma mãe ama o filho que ainda está no seu ventre, sem nem menos ter visto seu rosto. Esse amor cresceu em mim como uma pequena árvore, que aparentemente não daria frutos. Acreditava que tal sentimento por uma cidade seria facilmente erradicado de meus pensamentos e, de certa forma, do meu coração. Foi então que algo estranho aconteceu: o sentimento floresceu. Criou frutos. Sonhos. Ficou maior do eu mesma, tomou conta de mim.
É a sensação de toda uma vida. A súbita realização que seu lugar no mundo não é aquele que você acreditava ser, naquele em que você nasceu, que deveria ser o lugar onde seu coração está. O entendimento que seu coração é maior que globo terrestre e que nele engloba muito mais do que você imagina. As borboletas no estômago pela singela menção do nome numa conversa ou uma foto em um livro. Aquele arrepio sucinto que ultrapassa a nuca quando você se imagina andando pelas ruas, conhecendo os lugares que havia imaginado por tanto tempo. A lágrima que escorre toda a vez que você sente o coração batendo mais forte, com saudade de um lugar que nunca tinha conhecido. Aquela ideia que sempre transita na cabeça, que te faz viver com um sorriso e um objetivo na mão. Você sente que há algo de errado e que isso precisa ser mudado com urgência. Seu lugar não é mais aqui. Seu lugar é lá. Seu coração mora distante de você e a necessidade de reavê-lo é imensa. Ele só espera que você vá buscá-lo e vá viver, finalmente. É basicamente isso.
Meu ser sente amor por uma cidade que nunca conheci. Afeto por um lugar que cheira a história, a literatura, a sonhos, a um rio Thames que volta e meia cheira mal, mas isso é algo que acontece. Não sou tola achando que a cidade não possui seus problemas, suas imperfeições como qualquer outro lugar do mundo. A idealização, nesse caso, possui limitações.
O bom de se apaixonar por uma cidade é que esse amor acaba automaticamente sendo correspondido. O problema é vivê-lo. Há uma parte de mim que entende que minha vida está naquela cidade, que sabe que toda a solidão vivida aqui, lá não incomodará tanto. Será uma solidão londrina, uma que será interessante de viver. É como se tudo não fosse doer nunca mais, como se desembarcar no aeroporto de Heathrow me desse uma passagem também para uma vida sem tristezas. Nessa linha de pensamento, consigo ouvir dizeres engraçados sobre Paris, por exemplo. "Se for pra sofrer, que seja em Paris." A concepção é ingênua, mas arrisco a dizer que faz sentido. A realização de um sonho muda a ideia de vida de uma pessoa. Simplesmente, não há mais a necessidade de tristezas, de dores, de decepções, como se esse amor fosse curar um coração maltratado pelas situações antes vividas, simplesmente pela inalação de um ar poluído de uma cidade que você apenas conhecia por fotos, vídeos, relatos.
É nesse ponto que seres humanos são intrigantes. É engraçado que o amor mova tantas coisas, cause dores e, ao mesmo tempo, tenha o poder de curar. Como ele pode salvar e ao mesmo tempo, matar. Tudo o que ele desperta nas pessoas. É interessante, não é? Como existem tantas antíteses dentro de uma palavra, apenas. É bonito que todo um coração chore porque quer poder vislumbrar, de sua janela do seu apartamento, uma cidade que nunca dorme, uma que chove quase todos os dias do ano, uma que tem uma rainha, que tem um relógio gigante, que parece ter parado no século XIX, mas que é só impressão mesmo. Como isso pode dar vontade de ser gente grande e conquistar os mares. É belo que, por causa desse sentimento simples, meus dedos escrevam frases tentando alcançar aquilo que parece impossível.
O amor tem poder de mudar. De fazer lutar. Faz as pessoas alcançarem o céu, o mar, nuvens de poeira e sonhos. Sei que um dia, serei uma marinheira rumo ao meu porto, e que irei ancorar muito bem meu barco ao farol, para que não vá embora. Um dia estarei indo ao encontro do meu amor, da cidade onde meu coração vive. Lá ele adormece, esperando o dia que eu volte para colocá-lo novamente no meu peito, para que possa enfrentar a maior aventura da sua vida: viver feliz na cidade que nunca dorme.
Ah, é mesmo, esqueci desse detalhe. Me apaixonei por um lugar. Londres é o meu amor.
Foi amor a primeira (não) vista. Amei Londres como uma mãe ama o filho que ainda está no seu ventre, sem nem menos ter visto seu rosto. Esse amor cresceu em mim como uma pequena árvore, que aparentemente não daria frutos. Acreditava que tal sentimento por uma cidade seria facilmente erradicado de meus pensamentos e, de certa forma, do meu coração. Foi então que algo estranho aconteceu: o sentimento floresceu. Criou frutos. Sonhos. Ficou maior do eu mesma, tomou conta de mim.
É a sensação de toda uma vida. A súbita realização que seu lugar no mundo não é aquele que você acreditava ser, naquele em que você nasceu, que deveria ser o lugar onde seu coração está. O entendimento que seu coração é maior que globo terrestre e que nele engloba muito mais do que você imagina. As borboletas no estômago pela singela menção do nome numa conversa ou uma foto em um livro. Aquele arrepio sucinto que ultrapassa a nuca quando você se imagina andando pelas ruas, conhecendo os lugares que havia imaginado por tanto tempo. A lágrima que escorre toda a vez que você sente o coração batendo mais forte, com saudade de um lugar que nunca tinha conhecido. Aquela ideia que sempre transita na cabeça, que te faz viver com um sorriso e um objetivo na mão. Você sente que há algo de errado e que isso precisa ser mudado com urgência. Seu lugar não é mais aqui. Seu lugar é lá. Seu coração mora distante de você e a necessidade de reavê-lo é imensa. Ele só espera que você vá buscá-lo e vá viver, finalmente. É basicamente isso.
Meu ser sente amor por uma cidade que nunca conheci. Afeto por um lugar que cheira a história, a literatura, a sonhos, a um rio Thames que volta e meia cheira mal, mas isso é algo que acontece. Não sou tola achando que a cidade não possui seus problemas, suas imperfeições como qualquer outro lugar do mundo. A idealização, nesse caso, possui limitações.
O bom de se apaixonar por uma cidade é que esse amor acaba automaticamente sendo correspondido. O problema é vivê-lo. Há uma parte de mim que entende que minha vida está naquela cidade, que sabe que toda a solidão vivida aqui, lá não incomodará tanto. Será uma solidão londrina, uma que será interessante de viver. É como se tudo não fosse doer nunca mais, como se desembarcar no aeroporto de Heathrow me desse uma passagem também para uma vida sem tristezas. Nessa linha de pensamento, consigo ouvir dizeres engraçados sobre Paris, por exemplo. "Se for pra sofrer, que seja em Paris." A concepção é ingênua, mas arrisco a dizer que faz sentido. A realização de um sonho muda a ideia de vida de uma pessoa. Simplesmente, não há mais a necessidade de tristezas, de dores, de decepções, como se esse amor fosse curar um coração maltratado pelas situações antes vividas, simplesmente pela inalação de um ar poluído de uma cidade que você apenas conhecia por fotos, vídeos, relatos.
É nesse ponto que seres humanos são intrigantes. É engraçado que o amor mova tantas coisas, cause dores e, ao mesmo tempo, tenha o poder de curar. Como ele pode salvar e ao mesmo tempo, matar. Tudo o que ele desperta nas pessoas. É interessante, não é? Como existem tantas antíteses dentro de uma palavra, apenas. É bonito que todo um coração chore porque quer poder vislumbrar, de sua janela do seu apartamento, uma cidade que nunca dorme, uma que chove quase todos os dias do ano, uma que tem uma rainha, que tem um relógio gigante, que parece ter parado no século XIX, mas que é só impressão mesmo. Como isso pode dar vontade de ser gente grande e conquistar os mares. É belo que, por causa desse sentimento simples, meus dedos escrevam frases tentando alcançar aquilo que parece impossível.
O amor tem poder de mudar. De fazer lutar. Faz as pessoas alcançarem o céu, o mar, nuvens de poeira e sonhos. Sei que um dia, serei uma marinheira rumo ao meu porto, e que irei ancorar muito bem meu barco ao farol, para que não vá embora. Um dia estarei indo ao encontro do meu amor, da cidade onde meu coração vive. Lá ele adormece, esperando o dia que eu volte para colocá-lo novamente no meu peito, para que possa enfrentar a maior aventura da sua vida: viver feliz na cidade que nunca dorme.