Meia Volta, Volver! - Parte 3
by Emily
As luzes nas casas piscavam incisivamente enquanto caminhávamos pela rua abaixo. Eu tinha várias perguntas em mente, mas nenhuma delas parecia adequada. Elas pareciam muito ofensivas, eu achava. Então, peguei a pior delas, uma que eu faria pra qualquer idiota que aparecesse na minha frente.
- Isso não te incomoda? – perguntei, apontando para as árvores cheias de pisca-piscas que haviam pelo caminho.
Ela me olhou torto, mas deu risada. É, eu faria o mesmo gesto se alguém que conhecia a poucas horas, me fizesse uma pergunta dessas.
- De certa forma, sim. Há várias dessas perto da minha janela. À noite, o reflexo bate exatamente no meu rosto. – ela disse divertida.
- Eu também não. É desnecessário isso, em minha opinião. Natal é só mais um feriado sem graça. – disse um pouco amargurado. Talvez eu tivesse razão.
Vi que ela demorou um pouco para responder, até diminuiu a velocidade de seus passos. Ela tinha um jeito muito delicado de andar, parecia se mover como uma bailarina.
- Natal é uma data linda. Mas eu nunca, mesmo quando era criança, senti isso tudo que dizem, de amor, de sentimento natalino e tudo mais que eles pregam nessa época. Acho isso só marketing. – e deu de ombros. – Não é que eu não goste, mas... Ah, é complicado. Minha mãe diria que é coisa do capeta. – e deu risada.
- Temos a mesma visão. E, pelo visto, nossas mães pensam da mesma forma. Acho que mãe é tudo igual mesmo, não é? –e sorri para ela.
Ela concordou com a cabeça, enquanto olhava para frente. Parecia mergulhada em seus pensamentos. Dessa forma, pude prestar mais atenção em seu rosto. Ela tinha grandes maças do rosto, olhos expressivos, mas não muito grandes, uma boca também não muito grande, e cabelos na altura do ombro, com uma leve ondulação nas pontas. Era linda. Demais, eu diria.
De repente, ela parou.
- Porque você ainda está aqui? Por quê?
Fiquei sem ação. Ela estava me encostando na parede, no sentido metafórico da palavra.
- Boa pergunta. – e silenciei. Queria poder ter a resposta para essa pergunta também. Acho que eu a perdi nos olhos dela. Isso soava romântico demais.
- Eu não presto. – ela disse, triste. – Eu me sinto como um garoto agora. Um garoto lazarento e muito ruim. – concluiu, amarga.
- Independente de você prestar ou não, eu quero poder conhecê-la para saber se isso é verdade. Mas, parece que você não quer isso. – eu disse triste.
- O problema não é esse. Talvez seja, mas... – e começou a esfregar o rosto – Eu não sou digna disso. – ela disse com a voz abafada.
Eu iria começar com meu discurso moralista. Um que eu odiava, mas, poderia dar certo. Moralismo nunca foi uma coisa que eu gostava, era mais só pra levar as pessoas no papo, na maioria das vezes.
- Todo o ser humano é ca...
- Dane-se! – ela me interrompeu. – Gabriel, sério, não dá. Você é bom demais para esse ser aqui. – ela disse com raiva. – Eu amo uma garota, eu bebo, odeio natal, sou um ser humano desprezível. E isso é só o começo das coisas ruins que fiz. – ela disse, com a voz cheia de arrependimento.
Eu a abracei. Ela se soltou, depois de alguns segundos, e correu pra longe. Estava começando a considerar a idéia que essa garota deveria fazer algum esporte que envolvia corrida, porque, pelo amor de Deus!
Consegui alcançá-la e peguei em seu braço, com toda a minha força esquelética, e a girei, colocando-a em minha frente.
- Qual é o seu problema? – comecei. – Você sempre foge dos problemas assim? Não que isso seja um, mas, Manoela, isso é idiota! Fugir não vai te fazer esquecer! – despejei.
Ela estava com os olhos vermelhos, tristes. Dava vontade de pegá-la em meus braços e fugir para longe com ela, para onde ela não ficasse dessa forma. Isso, novamente, soava romântico demais. Vejo perigo aí.
- O meu problema é esse. – ela disse, com um sorriso triste. – Fugir ameniza a dor. – ela concluiu, com a voz embargada.
Coloquei uma mão em seu rosto, confortador.
- Não é necessário. Só isso. – eu disse, tranquilo.
Ela sorriu, doce e suspirou.
- Você honra seu nome. E eu sou um demônio, um djin. – e se afastou de mim, dando-me as costas. – Vai embora, vai. É melhor. Eu serei a vaga lembrança de uma terrível noite de natal. Daqui 21 dias, nem isso vai restar.
- Tudo bem. – concordei, de início. – Mas a gente vai se ver muito ainda. Daí você vai ser obrigada a ficar do meu lado, não importa o que isso signifique.
Ela se virou, me olhando triste. Ela ficou ali, deixando a brisa bater em seu rosto, balançando seus cabelos, até sorrir para mim e ir embora.
No meu coração, aquilo era um conforto. Ela não argumentou. Deu-se por vencida, eu acho. Por enquanto.
Segui meu caminho reto, enquanto ela virou na rua que cruzava com a que estávamos. De repente, ouvi ela me chamar, bem longe.
- Gabriel!
Virei-me e ela estava parada no meio da rua, me olhando.
- Caso a gente não se veja amanha, minha casa é ali, na avenida principal. Dei uma volta desnecessária por sua causa, sabia? – ela gargalhou alto. – É uma casa no estilo antigo, mas que foi restaurada e tudo mais. É no número 189. – ela gritou, para que eu pudesse ouvir bem.
- Caso o mesmo aconteça, a minha é na rua Albert Einstein, número 366. – gritei para ela. Era natal, poderia gritar até as 2 horas da manha, eu acho.
Ela ficou parada por um tempo, em silêncio. Depois, quando se moveu, gritou para mim novamente.
- Obrigado. E feliz natal. Não precisa gritar um ‘’eu também’’ cordial, preserve sua voz. Vou correr agora, tchau.
E ela correu mesmo. Sorri e continuei meu caminho, até minha casa, que não era muito longe dalí.
Chegando lá, encontro as luzes apagadas. Um bom sinal, não precisaria ouvir minha mãe e sua ladainha desnecessária. Na varanda, avistei o Pedro, jogado na espreguiçadeira. Ele estava acordado, então, dele eu não escaparia. Fui até lá e sentei no chão mesmo.
- Onde você tava moleque? Teus pais estavam te esperando para a ceia, mas, quando deu meia noite e tu não tava aqui, o seu pai só deu de ombros e disse que eles já estavam acostumados com aquilo. – e deu risada.
- Porque você tá aqui no escuro? Tem uma lâmpada aqui. – e apontei para cima.
- No escuro é mais legal. – e fez seu ''hahaha'' característico. – E, mesmo nessa escuridão, dá pra ver que você tá com uma cara esquisita. – ele disse, desconfiado.
Fiquei em silencio. Não faria diferença dizer ou não a verdade para ele. Mas ele era meu amigo.
- Conheci uma garota. – disse simplesmente.
- Isso é bom. Voltou a procurar, então? – e deu risada.
- Não é bem assim. Ela apareceu do nada. Não pude fazer muita coisa pra evitar isso. Eu tive que fazer jus a meu nome, sabe? - eu disse, irônico.
Novamente, isso soava muito romântico.
- Nossa. Psicodélico isso. - ele disse meio grogue.
- Vamos cantar, cara? Tenho uma música perfeita para ela. – eu sugeri.
- Ah, já até sei. – Ele disse, sorrindo. – ‘’ She's like the wind through my dreams, she rides the night next to me... ‘’ - ele começou.
- ‘’She leads me through moonlight, only to burn me with the sun, she's taken my heart, but she doesn't know what she's done ‘’ – continuei.
E assim fomos até altas horas. Dormi bem pouco e acordei cedo, com o som dos pássaros piando. Decidi fazer uma caminhada pelo campo verde que havia ali perto, para pensar um pouco na vida e achar o sono perdido. Sentei-me em um muro de madeira que havia ali e comecei a escrever, mentalmente, algumas rimas.
Foi quando, no meio da campina verde, avistei alguém, com o pequeno cabelo amarrado para cima, de moletom azul.
Era ela, com um caderno e lápis em mãos. Manoela estava ali.
É nessas horas que eu digo: Preciso cortar a tal mão do destino.
Continua.