Bonus Track ''Meia Volta, Volver!'' - Por Enquanto

by



6 meses atrás...



Manoela

Era meu aniversário. Estava esperando muito pelos meus 17 anos, mais do que qualquer coisa. Antes de sair de casa, estava com um frio na barriga, uma sensação estranha de que algo iria acontecer naquele dia.

Comemoraria meu aniversário numa pizzaria no centro, junto com meus amigos. Meu medo era que ninguém fosse, mas, quando cheguei lá, todos estavam, sorridentes até por me ver. Era difícil eu arrancar aquele tipo de reação das pessoas.

No entanto, estava faltando um. A mais importante.

- João, cadê a Esther? – perguntei, tentando disfarçar a tristeza.

- Então, você sabe como ela é, Manu... Não sei não se ela vem. – ele disse. – Talvez ela...

- Talvez nada João. Eu estou aqui. – Esther interrompeu, sorrindo para mim.

Corri para abraçá-la.

- Você veio... O meu presente veio. – eu disse, suspirando feliz.

- Eu não iria faltar. Ouvir música numa terça a noite parecia tentador, mas vê-la nesse vestido e de salto era um programa muito mais atraente. – ela disse, me olhando da cabeça aos pés. Enrubesci.

- Merda, Esther. Você é uma idiota mesmo. – disse, apertando suas bochechas.

Foi então que, me surpreendendo, ela me deu um selinho. Fiquei confusa com aquilo, mas somente sorri, enquanto ela piscava e se dirigia para se sentar a meu lado na mesa.

Eu tinha meu top cinco de dias perfeitos. Esse, com absoluta certeza, estaria em primeiro lugar. Teve de tudo: garçom derrubando copos, a Joana ficando bêbado com Fanta Uva, eu, Esther e o gasparzinho cantando Kelly Key no karaokê... Foi tudo tão legal e perfeito que quando o gerente chegou em nós, falando que eles iriam fechar, ficamos tristes. Muito. E demos muitas risadas depois de termos ficado tristes, vendo as fotos insanas que tínhamos tirado.

Os últimos a irem foram Esther e João, que ficava forçando a barra entre mim e ela. Ele queria tanto me ver feliz que até enchia o saco aquilo, era sufocante, mas o amava muito, e eu, muito mais do que ele, queria que aquilo que andava sonhando se tornasse verdade.

Foi só quando ele foi embora que ela me disse:

- Falei pra minha mãe que ficaria na sua casa hoje. – ela disse sorrindo.

- Desistiu de ficar correndo lá de casa então? Até que enfim... – disse, abraçando-a.

- Vamos como amigas, certo? – ela disse fria. – No máximo que vai rolar e umas cócegas debaixo do edredom, nada mais. Você é meio danada, então... – ela disse divertida, enquanto deslizava sua mão pelas minhas costas.

Dei risada e liguei para a minha mãe nos buscar.  Já no carro, era um pouco perceptível um nervosismo entre nós. Meu coração já estava batendo rápido, querendo que chegássemos logo ao meu apartamento. Quando finalmente chegamos, tudo se atenuou de tal forma que eu estava tremendo quando apertei o botão do elevador. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo.

- Então meninas, nada de conversas até muito tarde. – minha mãe disse, enquanto ajeitava o colchão no chão da sala.

Olhei para Esther e vi que nem ela e nem eu estávamos com sono e a fim de levar aquilo que minha mãe disse a sério. Decidi pegar meu pen drive e colocar na tevê, para assistirmos a um filme qualquer que estivesse lá.

- Nunca vi esse Lost And Delirious. – ela disse.

- Vamos ver esse então. Deixa eu desligar a luz aqui. - Desliguei a luz e me joguei ao lado dela.

A história do filme era tensa. Uma garota perde a mãe e vai para um colégio interno, onde conhece duas meninas, que tem um relacionamento, mas que, num determinado momento, é descoberto, e elas tem que se separar. O desfecho não poderia ser mais trágico.

No final, o silêncio imperou na sala. Só se ouvia a recém chuva, que caia tranquilamente. Esther olhava os créditos sem nenhuma atenção.

- Gostou? – perguntei. Minha voz estava tensa.

- Sim, sim. – ela disse, seca, e foi se levantando do colchão, em direção à porta.

- Aonde você vai? – perguntei, tentando, em vão, pegar em sua perna.

- Embora. – ela respondeu, destrancando a porta.

Balancei a cabeça e fui em sua direção, falando no corredor que dava acesso as escadas:

- Esther, volta aqui! – Mas ela não me ouvia, e nem parou.

Peguei o elevador e desci corri até o estacionamento, onde vi que ela estava parada, me olhando.

- Você tá louca? – disse, quando estava chegando perto dela. – Tá chovendo, volta pra dentro!

- Eu vou embora daqui. – ela disse com raiva. - Você colocou aquele filme de propósito, não foi? Para que tivesse que escolher, que desse em cima de você, para eu tentar te beijar novamente, não é? Manoela, você é... Meu Deus, como eu pude ter ido tão longe, te envolvendo nisso? – ela disse, gesticulando nervosamente.

Fiquei nervosa com aquilo. Quem era ela para falar daquele jeito comigo? Ah, lembrei: ela só é a garota que eu amo, nada mais.

- Você é covarde! Infantil! Para de tentar correr disso – cheguei mais perto dela e ela se afastou, me olhando com raiva.

- Vai embora Manu! – ela gritou.

Peguei-a pelos ombros e comecei a falar tudo:

- Sua criancinha indefesa, para com isso! Eu disse milhares de vezes para você que te amava, que lutaria por isso, para que pudéssemos viver isso e o melhor que você soube fazer foi correr, fugir, escorregar, esnobar, mudar de assunto! Caramba, é tão difícil você ver que eu lembro todos os dias daquela noite, da noite mais perfeita de toda minha vida... Eu vejo que nem disso você lembra mais... – eu já estava chorando nessa parte. – É tão difícil assim você entender que eu te amo?

Ela me olhou triste nesse momento. A chuva ficou mais forte também.

- É muito difícil sim. Mais difícil ainda é ver você assim por mim. E me lembro daquela noite, lembro de tudo, porque... Ah, Manoela, eu também amo você, mais do que você imagina. – ela disse sorrindo. – Eu só não queria, merda, te levar para uma coisa que é dolorida demais. Eu ainda vou tentar entender tudo isso, o de amar você. Prometo. – ela finalizou.

Coloquei uma mão em seu rosto.

- Tudo bem. Temos tempo. – disse antes de encostar meus lábios nos seus.

Foi estranho, no inicio, mas era com que eu sonhava, dormindo ou acordada, todos os dias. Beija-la era o que eu mais queria, era o que me fazia acordar todos os dias.

Abracei-a e fomos, em silêncio para cima novamente.

Estávamos molhadas, então, tínhamos que tomar um banho antes de dormir. Ela foi primeiro, enquanto eu tentava entender e ver que aquilo era verdade, nada de sonho. Eu estava feliz.

Ela terminou rápido e eu entrei. Fiquei lá, passando o sabonete pelo corpo e lembrando do beijo que ainda estava vivo em minha boca.

Interrompendo minhas conclusões, ouvi batidas na porta do banheiro.

- Quem é? – perguntei.

- Sou eu. Posso entrar? – Esther perguntou, com um fio de nervosismo na voz.

- Entra. – respondi.

Ela entrou, com a cabeça baixa, mas logo levantou e me olhou dos pés a cabeça, com um jeito malicioso e um tanto sexy, eu diria.

- Sua mãe ouviu o barulho do chuveiro e perguntou o que tinha acontecido. Eu disse que a gente ficou no tédio e foi cantar na chuva. O pior foi que ela acreditou. – e deu risada.

- Minha mãe não raciocina bem ás 2 horas da manhã. – eu disse sorrindo.

- Então, eu vou lá pra fora... – ela disse, baixinho, e se virou para abrir a porta.

Era a minha outra oportunidade. E eu não iria perdê-la. Sorri e disse:

- Você quer ir mesmo? Assim, você está linda nesse meu moletom, mas... – sorri e deixei no ar.

Ela me olhou, sorrindo incrédula, e disse:

- Aquilo lá embaixo foi um beijo, não um pedido de casamento.

- Você me disse uma vez que precisava usar aquilo que pensa... Acho que chegou a oportunidade. – disse divertida.

Ela me olhou mais uma vez, balançou a cabeça e trancou a porta.

- Pervertida... – disse, enquanto tirava a roupa e entrava no box.

Ela já era linda com roupa. Sem... Deus me perdoe por cair no pecado da carne!

- Isso vai ser bom. – disse, beijando-a.

Tudo tomou seu rumo naquele momento. Eu nunca imaginei minha primeira vez com uma garota no banheiro, mas, aquilo foi tentador demais. E um pouco precipitado, insano, mas foi a loucura mais doce e prazerosa que já provei na vida. Ficamos lá por um bom tempo, até ficarmos cansadas.

Quando fomos deitar no colchão, para descansar depois daquilo, ela deitou em meu ombro e disse, com os olhos brilhando:

- Eu não tenho coragem nenhuma de te deixar depois disso. Nunca mais, mesmo. Não tem como. Eu te amo. – e me beijou suavemente na boca.

- Eu te amo também. – e a apertei mais a meu corpo, para sussurrar:

- I can’t live without you / I can’t live without your love…

Antes de finalmente adormecer, fiz uma pequena correção:

Aquela era a melhor noite da minha vida, sem mais.