Meia Volta, Volver! - Parte 5

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Voltar para casa parecia um tanto irreal. Tudo aquilo era irreal. Mas acho que os gritos da minha mãe me fariam acreditar que aquele era um dia normal. Quer dizer, que era um dia.

- Então, Sr. Gabriel Duarte, você acha que não passar o natal com a sua família e ficar até de manha fora de casa é legal? – minha mãe disse, quando coloquei o pé dentro de casa.

- Eu não estou chegando agora, mãe. Estava dormindo, só que acordei cedo e fui caminhar – me expliquei, indo para meu quarto.

O eco dos gritos da minha mãe, que estava na sala, eram assustadores. Tenho que ver isso.

- Mas não é disso que eu estou falando, Gabe! O fato é que você não passou o natal com a gente! Natal é família, não orgias na praia! É importante, entende? – ela gritou pelos corredores.

Orgias? Hã?

- Natal é só uma data idiota, mãe. É tipo comercial da coca cola, é só para vender, não tem mais significado nenhum.

Minha mãe estava na porta do quarto, olhando brava para mim.

- Eu sempre imaginei que aquela vadia não tinha boa influencia. – ela disse.

Vadia? Me deixe adivinhar de quem ela estava falando?

- A Júlia vadia? Como assim, mãe? Você acha que eu não tenho livre arbítrio, o meu jeito próprio e que ela não tem alguma coisa a ver com isso?

Ela veio em minha direção, envergonhada.

- Desculpa, Gabe, é que eu esperei por você a noite inteira, e nada. Eu e o seu pai vimos o quanto você mudou, e eu precisava encontrar alguém para colocar a culpa. – ela disse, com os olhos tristes.

Essa era uma das maiores qualidades da minha mãe, Irene. Ela reconhecia os erros, mesmo quando o erro não é culpa dela.

- Tudo bem, mãe, eu estou aqui e vou estar para sempre. Mas nada disso é para a Júlia, é só que eu não gosto do Natal. Só isso.

Ela levantou a sobrancelha.

- Tá certo, Gabe, eu vou acreditar nisso. Mas fugir dos problemas não faz você parar de pensar neles.

Parecia eu falando com a Manu.

- Valeu pelo conselho grátis, mas estou com fome.

Ela me olhou brava

- Até parece que você tem 5 anos, né? Tem que ver isso. – e deu risada.

Fomos para cozinha, onde comi o que havia sobrado da ceia. Quer dizer, disputado com o Pedro, porque está para nascer alguém que coma tanto como ele. Depois, ele foi dormir, e escapei de uma nova conversa sobre Manoela. Fiquei conversando mais um pouco com a minha mãe e fui ajudar meu pai a arrumar o pequeno jardim que tínhamos no fundo de casa. Arrumamos e pintamos o banco e o portal floral de madeira e retiramos todo o mato que havia entre as flores tímidas que haviam no canteiro que circundava o banco e o portal.

Já era noite quando terminamos, e fui chamar minha mãe para ver o resultado.

- Ficou lindo, João. Lindo mesmo. Lembra-me a minha juventude aqui. – minha mãe disse, abraçando a mim e a meu pai.

- Pois é. Ficou realmente muito bom. – meu pai concordou. – Agora, Gabe, a surpresa. – ele me disse.

O legal do meu pai é que ele não pega no meu pé sobre isso, de desobedecer regras e tudo mais. Ele era igual na minha idade, então, estava tudo certo.

Fui ligar o pisca-pisca que havíamos colocado no portal, deixando aquele lugar super romântico.

- Então, vou deixá-los sozinhos, namorando, porque eu vou sair. Prometo que não demoro. – disse.

Minha mãe, que estava com os olhos brilhando diante da cena, só meu fez uma recomendação:

- Não se apaixone.

Olhei para ela, mas vi que ela e meu pai estavam muito ocupados para qualquer objeção minha.

Tomei um banho, coloquei minha calça jeans e camiseta polo azul e, antes de sair, Pedro me chamou, da sala, onde estava assistindo um filme.

- Cuidado, cara. Ela é perigosa. – ele disse, sério.

- Vou tentar. Obrigado, mas nem sei por quê. – respondi e já sai.

Fui para praça esperar Manu, talvez esperando um bolo, isso sim. Até que, 3 minutos depois que eu estava encostado em uma tenda, vendo a banda se organizando para mais uma música, ela toca meu ombro.

- Pois bem, estou aqui. – e me virei, sorrindo.

Ela estava linda. O vestido rosa acinzentado, com um leve movimento, a deixava mais doce do que já era, e os cabelos suavemente enrolados deixavam com um ar angelical, me deixando louco também.

- Você está linda. – eu disse, pegando sua mão.

Ela sorriu, envergonhada.

- São seus olhos azuis que enxergam demais. – ela disse.

Sorri também e coloquei minha mãe em seu ombro, e fomos caminhar na praça, para comer alguma coisa. Vi que ela não era fresca, e comeu uma coxinha e um pastel gordurosos com coca cola sem reclamar. Entre nossas mordidas, descobri que ela tinha um irmão mais velho, chamado Daniel, que ela gostava de jogos, de filmes de terror, de seriados, de Clarice Lispector, Drummond e mais milhares de escritores maravilhosos. Os olhos dela se iluminavam quando falava de cada um deles, e aquilo era realmente encantador.

O pastel e a coxinha acabaram e ainda fomos comer um algodão doce gigante antes de nos sentarmos no banco que ficava de frente com a banda. Até que, enquanto falávamos sobre músicas, tive uma ideia.

Fui falar com o vocalista da banda, que estava tomando água, e fiz um pedido musical para ele. Ele sorriu e assentiu com a cabeça, me deixando feliz.

Fui rápido até onde Manu estava e, em menos de 1 minuto, a banda começou a tocar ‘’Um Sonho A Dois’’ para nós. Estendi minha mão, esperando alguma reação contrária, mas não. Ela pegou em minha mão e fomos para o centro da praça.

A letra da música era perfeita ao momento, mas eu ainda pensava no que dizer a ela. Mas, ela foi mais rápida, e disse, encostando sua cabeça em meu ombro.

- Aqui, nesse momento, eu sinto que nada faria mal a nós. Sinto que estou protegida em seus braços, e que não faria nenhum sentido algo de ruim. Aqui, eu finalmente achei um refúgio. E eu nunca vou deixa-lo ir.

Sorri. Aquilo era mágico.

- Vou proteger você até seu coração parar de bater. – respondi.

A música entrava em seus versos finais, e cantei baixinho para ela:

- Ela é tudo, enfim, que eu preciso ter.

Ela respondeu:

- Ele é tudo, enfim, que eu preciso ter.

Peguei seu frágil rosto e beijei sua testa, seus olhos, suas bochechas, e, por fim, sua boca. Aquilo era perfeito. E eu tinha medo que acabasse toda aquela aura de amor de uma hora para outra.

Ela separou suavemente nossos lábios e fez um carinho em meu rosto.

- Um sorriso pra te convencer do luar. – e me abraçou forte.

Fechei meus olhos e só senti todo aquele turbilhão de sentimentos.

Mas, nesse momento, ela paralisou. E só senti em meu pescoço lágrimas e uma respiração desesperada.

- Manu, você tá bem? O que houve? – perguntei, afastando-a. Seus olhos eram a tradução da dor. Entrei em pânico.

- Meu Deus, Manu, o que está acontecendo? – perguntei, balançando-a pelos ombros.

E a resposta veio em um abafado sussurro.

- Esther.

Virei-me e vi a criatura loira, que era o objeto de amor e dor de Manu, com os olhos vermelhos fixos em nós dois a poucos metros. Trocamos um olhar frio, e ela correu.

Manu foi atrás dela, mas antes me olhou triste, sufocando um grito e um choro desesperado. Talvez eu devesse estar sufocando um grito ou algo do gênero, porque eu deveria estar com uma cara horrível.

Foi então que as palavras da minha mãe ecoaram em minha mente, enquanto via Manu se afastar entre a escuridão: não se apaixone.

Pois é mãe, desculpa. Bem que eu tentei.





Continua.