Meia Volta, Volver! - Parte 6
by Emily
Lá estava eu de volta. Um dois de paus. E um natal fracassado.
De volta.
Deus está me punindo, com certeza. Essas coisas só podem ser um castigo.
Enfim, estou querendo arrumar um culpado para isso que aconteceu, isso sim, achar alguém que não tenha nada a ver com o contexto todo. É mais fácil culpar outra pessoa pelos seus erros idiotas do que realmente assumir que você é um idiota maior de não ter percebido que estava errando.
Mas eu não errei. Quer dizer, errei na parte de ter me apaixonado por uma garota que conhecia a menos de 24 horas, isso sim. Tecnicamente eu estava bem. Nenhum dano no coração, aparentemente. O negócio mesmo é ir para casa, Gabriel. Enquanto caminhava, ficava imaginando o porquê que aquela garota apareceu ali, olhando para nós. O porquê de ela ser incrivelmente bonita e de ter um ar de confiança e poder, duas coisas que eu nem sabia o que eram e que, provavelmente nunca experimentaria, pra ser bem sincero. Ela parecia muito melhor que eu. Pensar nisso não ajuda, eu sei, mas, ah, que se foda, vou parar de pensar isso e tudo vai voltar a ficar bem.
Quem dera fosse fácil assim. Tudo o que está ruim pode piorar, é um constante invariável.
E lá estava a confirmação disso. Tinha uma pessoa que eu conhecia muito bem encostada no muro, olhando para frente. Uma que era…
- Gabe? – a garota falou.
Era sacanagem, era sacanagem, era sacanagem…
-Ju-Ju-Julia? – gaguejei.
Ela sorriu.
- Quanto tempo, não é? Para mim parece que foi ontem que estávamos aqui mesmo, tocando seu violão e cantando. – ela disse, me olhando daquela forma… aquele jeito que me fez apaixonar por ela.
- Pois é… Como vai a Bahia? A companhia de dança é boa mesmo? – perguntei, tentando fazer a “social”. Eu tinha certeza que não estava dando certo, pela cara que ela fez quando respondeu.
- É ótimo. Era o meu sonho, não é? – ela disse, em um tom triste.
Sempre foi o sonho dela. E, como eu sabia, desde o inicio, não estava incluído nele.
- Ainda bem que você conseguiu Julia. Estava torcendo por você. – sorri tortamente. – Mas, o que você tá fazendo aqui? Até onde eu sabia, você mora a muitos kms daqui.
Ela chegou mais perto.
- Eu vim para me despedir de você. – ela respondeu, pegando minha mão.
Fiquei atordoado.
- Como assim? Explica isso direito, sabe como odeio não entender as coisas.
- Vou para Nova York na primeira semana de janeiro. Passei em um teste para entrar para o balé de lá. – ela respondeu, mas não fez questão de me olhar nos olhos.
Era uma despedida definitiva. Nada parecida com aquela que ela fez há algum tempo atrás, quando se mudou com a família para a Bahia.
- Mas você nem fez 18 ainda, nem terminou o ensino médio e…
- Terminei esse ano, Gabe. – ela disse, olhando com dor para mim.
- É meio que do outro lado do atlântico. Fica complicado eu te visitar lá. – disse, triste.
- Eu sei. É por isso que eu vim. Eu tinha que ter certeza que você estava bem antes de ir pra lá. Tinha que ver se estava vivo, estava andando, estava feliz. Nunca me perdoaria se fosse embora sem ter tocado você pela última vez. – ela disse, afagando meu rosto.
- Não é justo. Você disse que seria pra sempre, lembra? Não faz tanto tempo assim que você disse isso pra mim. E cá estamos nós, em uma despedida permanente. – disse, olhando com raiva para ela.
- Eu nunca vou esquecer você, Gabriel. Você é o meu anjo, o único amor que eu tive. Mas, nós dois temos ambições diferentes, pensamentos contrários. Não iria dar certo, infelizmente. – ela disse, e vi aquelas lágrimas, que não estava muito acostumado a ver, rolarem nos olhos dela.
- Eu sei disso. – e a abracei. – você sempre será a única garota que me fez entrar em um terno para dançar valsa. – e ri.
Ela riu.
- E você sempre será o cara dos Beatles. O meu cara. – ela disse, olhando para mim.
- Você sempre será a minha garota do James Blunt. A minha garota. – eu disse.
E ela veio, de mansinho, chegando perto do meu rosto, como quem não quer nada, para me beijar.
Eu tinha que resistir. Não, ela já tinha me feito sofrer horrores. Mas era tarde demais. Meu lábios já estavam naqueles cheios de veneno doce daquela garota.
E ela foi me apertando, sugando minha força, minha alma, minhas lembranças ruins, a tristeza, uma memória perdida de uma garota que gostava de vodka, levando embora tudo o que eu tinha. Quando dei por mim, estava em cima dela, na minha cama, fazendo aquilo que não devia, com quem não devia, do jeito que não devia. Mas não era o momento para se pensar nisso. Era a última vez e tudo iria voltar a ser como antes: uma merda.
Ela dormiu em meus braços, esfregando seu pé no meu, do jeito que fazia quando namorávamos. E ela ia embora.
Pra sempre. Merda. Odeio esse “sempre”. Espero que ele sinta, algum dia, a dor que essa palavra possa representar.
Me entreguei aos sonhos um pouco antes de amanhecer. Fiquei a noite inteira pensando na Júlia indo embora, na Manu, na Esther, na minha vida e na merda que era minha vida, pra ser bem sincero. Acordei as 6 e pouco com o barulho de um celular caindo no chão.
- Ia embora sem se despedir, Julia? – disse, enquanto via ela pegando o celular do chão e se encaminhando pra porta.
Ela parou e me olhou, com os olhos vermelhos.
- Estava conseguindo. – ela respondeu, rindo.
- Eu te levo até a porta, só me deixa por uma calça. – respondi.
Coloquei a calça apressadamente e fui andando devagar até o portão de casa, abraçado a ela. Eu realmente não queria que ela fosse embora. Não, não e não.
- Você realmente tem que ir? – perguntei, em uma última esperança idiota.
Ela afagou meu rosto, com lágrimas nos olhos.
- Tenho. Mas minha cama sempre será de casal. – e riu, enquanto me abraçava.
Enfiei meu rosto em seus cabelos, reprimindo um choro.
- Com certeza. – peguei seu rosto e beijei sua testa, por fim.
- Eu nunca disse “eu te amo” no tempo em que namoramos, não é? – ela disse, um pouco chateada consigo mesmo.
- Não. Você sempre estava preocupada demais com seus movimentos perfeitos de balé. – e peguei sua mão, enquanto ria.
- Eu amo você, Gabriel. Pra sempre. – ela disse, por fim. E me beijou.
- Eu amo você, Julia. – disse, por fim. Amava ela mesmo, não estava mentindo, muito menos traindo meus pensamentos.
- Eu te ligo, mando notícias, etc, ok? – ela disse, se afastando lentamente.
- Tudo bem. – disse, soltando sua mão. – Se cuide, tá? – disse por último.
Ela balançou a cabeça, secando o rio de lágrimas que estava vindo.
E ela foi. A sensação de vazio era tão grande que tive que me apoiar no muro, para não desmontar. Era um amor estranho esse que eu sentia por ela. Nunca iria entender, de verdade. Quem sabe, ano que vem eu tome vergonha na cara e arrume dinheiro suficiente para ir pra Nova York atrás dela.
Enfim, iria voltar a dormir, era melhor.
Foi então que eu vi um cabelo conhecido virando a esquina. Não pode ser, não pode ser, não pode ser…
Corri atrás dela e gritei seu nome.
- Manu? - ela se virou e parou.
Destino, destino… O dia que eu te encontrar, te juro que você não sai vivo. Mas, por enquanto, quem eu não tenho certeza que estará tão vivo assim sou eu…
Continua...